Edição 10

"La Gringa": Thaís Tanure
"La Gringa": Thaís Tanure

notas de chegada 1 thaís tanure * a polícia federal se ocupa da imigração. da imigração; do covid não nos pediram uma vez sequer o exame. Queriam saber se eu era casada, se eu era francesa, o quão europeia eu era antes de passar a fronteira. Seria o covid uma desculpa? chegamos em um calor de 38 graus. Ensaiamos uma normalidade na partida. Bonitas partidas, como se o isolamento nos lembrasse que era preciso estar presente. Não víamos os nossos amigos havia tempo, e todo um outro tempo havia pela frente com a mudança. A presença era a solução na quarentena brasileira. Nos despedíamos, em caminhadas, na porta de casa, máscaras adentro, com uma disponibilidade e uma presença inéditas: um presente em confins fazia um dia frio de inverno, com uma ventania de gelar o pescoço. não estava gelada por (não) levar meus livros e fotografias; estava gelada pelo vento das montanhas de Minas. já em paris, mal dormida, vivo os 38 graus. E também a incerteza, uma certa sensação de não saber bem o que fazer, travestida de férias / covid. Nos lembramos do parque que tem aqui perto, decidimos ir, de máscaras, com algum frenesi e álcool gel. ao avistar a paisagem que conheço bem, as árvores em torno dos prédios baixos, a escultura dedicada às crianças tomadas pelos nazistas, o lago com as flores…e… pessoas! Crianças brincando, adultos, várias pessoas simplesmente sendo e existindo junto ao verde daquele parque que era… verde, humano, vivo. achei que, ao sair do brasil, sairia também do peso do isolamento longo, e também daquele de viver sob a influência irresponsável de um governo genocida, que em muito dificulta a pandemia em si; como se, como espera nossa criança interior, fosse passar em um passe de mágica. acontece que meus passos pararam ali na frente daquele parque, daquele verde e daquelas pessoas que eu ansiava somente por ouvir. e então, inadvertidamente, comecei a chorar. As lágrimas pulavam para fora da máscara, pedindo para existir. como se ali eu me desse conta de tudo que me privei, que nos privamos. Ali a liberdade tinha corpo, e certamente eram corpos de criança. e eu que fazia exercícios distópicos com meus amigos e amigas: dizia que, isolados, criávamos raízes dentro de casa. E que, de repente, quando pudéssemos, não sairíamos: iríamos até a porta, a contemplaríamos e daríamos meia-volta, como quem olha um mundo desconhecido que se deseja e que, no entanto, se teme. Recuo. Não esperava que eu iria, de fato, me afeiçoar tanto à casa, alguma casa (que, no entanto, já não mais havia). a minha cabeça, que doía, mas que, entretanto, não sofreu nenhuma pancada; estava ela também confinada, sem conceber que estava há meses girando em círculos dentro de casa. subi na teia de aranha gigante do parque, a convite do Lino. Perguntei a ele como ele estava se sentindo. Ele me responde que estava feliz. Insisto, com aquela impertinência materna: “Mas como você está se sentindo vendo outras crianças depois de tanto tempo confinado?”. Ele me responde “Ah, nem foi tanto tempo assim”! definitivamente o tempo das crianças é o tempo do presente. o meu olhar se entranhava ao da teia, mas mais (se) estranhava. * thaís tanure, além de editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo com um time phoda, é historiadora, doutoranda na universidade paris 1 sorbonne, nascida em belo horizonte, mineira desconfiada que adora deitar em pedras quentes e escrever até debaixo d’água. atualmente, morre de chuva em paris.

Tradução 2: Skunk [1]: outra arma israelense para punição coletiva
Tradução 2: Skunk [1]: outra arma israelense para punição coletiva

As forças israelenses estão usando uma arma de "controle de multidões" com a qual punem coletivamente os civis palestinos por se atreverem a protestar. Yara Hawari* Em Nazaré, Haifa, Ramallah, Jerusalém e em outras localidades, palestinos têm se manifestado contra a contínua limpeza étnica nas mãos do regime israelense. Motivados e inspirados pela inabalável resistência das famílias palestinas que enfrentam despejos a força de suas casas no bairro do Sheik Jarrah em Jerusalém, eles tomaram corajosamente as ruas - corajosamente porque o fazem sabendo que o que os espera é uma brutal repressão por parte do exército e da polícia israelense. De fato, no complexo de Al-Aqsa, onde ocorreu grande parte da violência contra manifestantes, os palestinos receberam tiros e bombas de gás lacrimogêneo enquanto rezavam. Mais ao sul, Israel lançou ataques aéreos em Gaza, atingindo edifícios civis e matando mais de 40 pessoas, incluindo pelo menos 14 crianças. Para além dos mortos, centenas foram feridos por balas de borracha e letais, gás lacrimogêneo e espancamentos, mas também por uma arma que é menos conhecida da mídia global que cobre os protestos. Muitos se referiram erroneamente a ela como canhão de água ou um caminhão de esgoto [2]. Em árabe, chamamos de "kharara" - literalmente "o cagador" [3] - por seu cheiro pútrido. Em inglês, ela é chamada de skunk water, em referência ao cheiro notoriamente horrível liberado pelos gambás. A skunk water foi desenvolvida como uma "arma de controle de multidões" por uma empresa israelense chamada Odortec. A skunk water é um composto líquido com um odor avassalador que foi descrito por aqueles que a experimentaram como o cheiro de esgoto misturado com cadáveres em decomposição. Na realidade, é uma mistura de produtos químicos que causa náusea intensa, obstruindo a respiração normal, provoca violentos engasgos e vômitos. O documento de segurança da empresa também indica que ela pode causar irritação da pele, dor ocular e abdominal. Os palestinos também relataram que ela causa queda de cabelo. As forças de segurança que utilizam skunk water afirmam que ela não é letal e não é tóxica. No entanto, doses altas podem ter um efeito letal e, quando disparada de um canhão de água, é pulverizada a uma pressão extremamente alta, o que pode causar ferimentos graves. Mesmo uma pequena borrifada de skunk water deixa um mau cheiro na pele durante dias. Nas roupas e nos edifícios, o fedor pode durar ainda mais. É claro que as forças israelenses não a utilizam somente para reprimir os protestos, mas também para castigos coletivos. Caminhões de skunk water passam por bairros palestinos pulverizando edifícios em retaliação aos moradores locais que protestam contra a ocupação israelense e o apartheid [4]. Como resultado, as empresas têm que fechar por dias e as famílias têm que deixar suas casas por longos períodos até que o odor desapareça. Isto é o que faz dela uma ferramenta de punição coletiva brutal. Além de vender skunk water ao governo israelense para usar nos palestinos, a Odortec também a exporta. Nos Estados Unidos, ela é fornecida pela empresa Mistral Security, que recomenda seu uso em "postos de fronteira, instalações correcionais, demonstrações e sit-ins [5]". Vários departamentos policiais já a compraram, inclusive o de Ferguson, Missouri, após os protestos de 2015 contra a brutalidade policial e o racismo institucional. O fato de que esta arma desenvolvida por uma empresa israelense está ganhando popularidade no exterior não surpreende. Israel é o maior exportador per capita de armas do mundo e usa os palestinos como cobaias para demonstrar sua "eficácia" e sua "mortandade". A Odortec e outros fabricantes de armas israelenses não precisam sequer investir na comercialização de suas armas; os canais de notícias que divulgam filmagens de ataques brutais do exército israelense fazem o trabalho por eles. As empresas israelenses que produzem armas para matar em massa têm Gaza para testá-las. Os israelenses até chamaram a faixa densamente povoada, onde os civis não são protegidos por uma "cúpula de ferro" [6] ou abrigos militares sofisticados, de "galinha dos ovos de ouro" [7]. O horrendo resultado de décadas de práticas de "testes" das empresas de armas israelenses tem sido a morte e mutilação de milhares de palestinos. Israel exporta armas testadas em civis palestinos para cerca de 130 países, inclusive para governos com registros horríveis de direitos humanos. Para as pessoas desses países, que se encontram na ponta final da agressão das forças locais usando armas israelenses, os palestinos têm muitos conselhos. Especificamente para lidar com o "kharara", recomendamos o seguinte: se pegar na sua pele, esfregue tomate e azeite de oliva para ajudar a tirar o cheiro; se pegar em suas roupas, jogue fora. No geral, é melhor evitar ser atingido a todo custo. Para lidar com os efeitos psicológicos da repressão violenta e do castigo coletivo, os palestinos também têm uma recomendação: humor ácido. O "kharara" já figura de forma proeminente nas piadas palestinas. Uma delas é: o que você prefere enfrentar - tiros ou "kharara"? *Yara Hawari é doutora, escritora e analista política sênior da Al Shabaka. Além de seu trabalho acadêmico focado em estudos indígenas e história oral, ela também é uma comentarista política que escreve para vários meios de comunicação, incluindo The Guardian, Foreign Policy e Al Jazeera English. Ela frequentemente documenta e relata abusos cometidos pelas forças de ocupação israelenses na Palestina. twitter: @yarahawari Info da bio: https://www.frontlinedefenders.org/en/profile/yara-hawari Tradução: Sheila Lopes Leal Gonçalves, professora doutora em história e editora da revista Muheres do Fim do Mundo. Notas da tradutora: [1] Nota da tradutora: conforme explica Yara Hawari, a palavra “skunk” do título se refere a um composto químico que tem sido usado como arma pelas forças armadas israelenses, muitas vezes chamado de “dirty water” ou “skunk water” - a expressão é mantida no original ao longo desta tradução. Já em 2014 a jornalista e correspondente internacional do jornal Le Monde, Florence Beaugé, denunciava seu uso contra os palestinos. Para maiores informações ver: https://www.bbc.com/news/magazine-34227609 e também o texto de Ana Echevenguá sobre a escassez de recursos hidráulicos na Palestina: https://www.ecodebate.com.br/2011/09/09/a-agua-como-arma-de-guerra-artigo-de-ana-echevengua/ [2] No original, “sewage truck”. [3] No original, “the shitter”. [4] Para se aprofundar um pouco mais nas discussões sobre o uso de apartheid no contexto palestino, recomendo o trabalho da Havana Alícia (em especial o terceiro capítulo): MARINHO, Havana Alícia de Moraes Pimentel. Ocupação israelense na Palestina: colonialidade, geopolítica e violações de direitos. Tese (doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de Economia, Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional, 2015. E também o artigo: BARKAY, Rafaela. Nenhuma mulher será livre até que todas as mulheres sejam livres: um olhar sobre o conflito israelense-palestino sob o prisma feminista. Rev. psicol. polít., São Paulo , v. 16, n. 35, p. 53-70, abr. 2016 . Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2016000100004&lng=pt&nrm=iso> [5] Os “sit-ins” são protestos não violentos que ocorrem sobre a forma de ocupação de determinado espaço no intuito de chamar atenção para demandas específicas. Para maiores informações, ver: https://kinginstitute.stanford.edu/encyclopedia/sit-ins [6] No original, “Iron Dome”. Trata-se do sistema de defesa antiaérea israelense. [7] No original, “cash cow”. Texto original publicado em 12 de maio de 2021 e pode ser acessado aqui: https://www.aljazeera.com/opinions/2021/5/12/the-skunk-another-israeli-weapon-for-collective-punishment Imagem de capa: Prédio derrubado por ataque israelense em Gaza / AFP , acesso em https://www.bbc.com/portuguese/internacional-57069211

Cartas ao espelho #mãesnauniversidade
Cartas ao espelho #mãesnauniversidade

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa 10ª edição, recebemos um texto especial de uma colaboradora para a coluna Cartas ao espelho. Leiam: Naquele dia tudo aconteceu como vinha acontecendo. Acordaram cedo, tomaram juntas o café e foram para seus destinos. A pequena pra escola, a mãe para o trabalho. Um longo dia distantes, algo que era até bem novo para elas, visto que durante esses 5 anos longos as duas distantes era muito raro, sempre juntinhas, sempre coladas e se cuidando. Mais tarde, se juntaram novamente e seguiram sua rotina. A filha, acostumada desde o ventre a acompanhar a mãe onde quer que fosse, a Universidade acabava sendo só mais um espaço comum entre as duas. Muitos brincavam que seria uma criança prodígio, com boas articulações na fala e bem desinibida. O que de fato se concretizava. Desde sempre a pequena acompanhava a mãe nas aulas, com uma tranquilidade e completamente invejável. Costumava entrar e sair das salas sem ser notada, sempre acompanhada de folhas de papel, lápis de cor e alguns livrinhos ou um celular com fones para assistir seu desenho. Os amigos da mãe diziam achar incrível a forma como a criança se comportava, era uma criança super agitada, mas dentro da sala de aula sabia respeitar o ambiente e suas atitudes mais notáveis eram a entrega de desenhos aos professores e colegas de sua mãe ao fim das aulas. No tal dia ela estava assim, como sempre estivera. Calma, silenciosa e desenhista. Sentada ao fundo da sala com a mãe, visto que em aula anterior havia sentido certa rapidez do professor. Quando tudo aconteceu, ambas não entenderam direito, assim como não entendem até hoje. Mas pra mãe lhe doeu muito. O professor pediu que saísse da sala com sua filha, e ao pedir começou a proferir diversas palavras maldosas, preconceituosas e humilhantes. As duas saíram, acompanhadas de alguns amigos que se compadeceram naquele momento inesperado. Enquanto tentava entender de verdade o que estava acontecendo, a mãe chorava copiosamente, desejando profundamente que sua pequena não estivesse ali, presenciando aquela situação, aquele choro... compartilhando este momento doloroso. A criança chorava ao ver a mãe chorar e somente perguntava "por que ele não gosta da gente, mamãe?" Os dias que se seguiram pareciam uma sequência de filme mal produzido e mal editado. A história ganhava uma repercussão que não se esperava e as duas estavam mais uma vez no olho do furacão. Passando por um momento tenso e sofrido, juntas. Se seguiram várias entrevistas, depoimentos e coisas que não eram usuais para a mãe. O quanto pode, manteve a filha distante desses holofotes, que causaram na matriarca um grande aprofundamento de problemas psicológicos. O pior sentimento instaurado foi o medo. Quando a mãe recebeu um chamado do Conselho tutelar para responder sobre uma denúncia que haviam recebido do tal professor, dentre as acusações da denúncia estavam: não alimentar a criança, ser o pai um traficante, entre tantas outras mentiras absurdas e completamente infundadas. Não foi preciso muito para desmentir, bastava olhar pra ela pra ver que aquilo não passava da mais fútil e sádica forma de torturar e perseguir alguém. A mãe chorava dias e dias seguidos, necessitando de remédios para controlar tudo que sentia. Um grande medo de perder sua filha, de perder o seu futuro... Mas assim como sua mãe Oyá, tornou os ventos agentes de mudança, aprendeu com cada percalço nesse caminho, tem aprendido. A perseguição do professor não conseguiu muitos frutos, a mãe segue seu caminho na Universidade, com as mãos quase no diploma. A filha, segue sendo articulada como sempre foi, inteligente e forte ao lado da mãe. As duas juntas, como sempre foi. E sempre será. Para todas as mães universitárias do mundo.

Tradução 1: Colômbia, retrato de um país que se levanta
Tradução 1: Colômbia, retrato de um país que se levanta

Marina Sardiña* “Para o povo libertação, para o povo o que é do povo, para o povo a vitória”. [1] Este coro, entoado por milhares de pessoas, ressoou na última quarta-feira (05/05/2021) nas ruas de Bogotá durante uma nova jornada de greves nacionais. Um canto que ao cair da noite se viu sufocado pelo som das bombas de efeito moral lançadas pela polícia para dispersar os manifestantes. [2] Os protestos contra o governo de Iván Duque reuniram amplos setores da sociedade: jovens estudantes endividados devido aos custos para ingressar na universidade; coletivos feministas que exigem o fim da violência contra mulheres, que aumentou durante o confinamento com mais de 630 casos de feminicídios durante 2020, segundo o Observatorio Independente de Feminicidios de Colombia [3]; o setor médico, que rechaça as privatizações e desigualdades a que levará a iminente reforma da saúde. A pandemia mostrou que morrer por causa da Covid-19 na Colômbia era cinco vezes mais fácil para as classes baixas e, agora, em plena terceira onda de coronavírus, quando o país se aproxima dos três milhões de pessoas contaminadas e supera a marca de 76.000 mortos, os manifestantes temem mais as políticas governamentais do que a pandemia. Essas são as imagens do mal estar social durante os oito dias de protestos em todo país latino-americano. Eles foram iniciados no dia 28 de abril para exigir que o governo conservador de Duque eliminasse o projeto de Lei de Solidariedade Sustentável, uma reforma fiscal impulsionada pelo ex-ministro da fazenda Alberto Carrasquilla. Uma vez que a carta foi retirada do congresso “para redigir um novo texto”, ele anunciou sua demissão. A reforma tributária, que afetaria principalmente as classes médias e baixas do país, reacendeu um conjunto de insatisfações históricas, tanto nacionais, quanto setoriais e locais. “A situação econômica, social e de saúde também se fez presente nas manifestações. Embora tenha começado com uma reforma fiscal, as pessoas estão pedindo muitas outras reformas sociais dada essa acumulação de queixas, abandono, abusos e violações dos direitos humanos por parte da polícia. De alguma maneira as pessoas estão, também, protestando contra o governo”, explica Mauricio Albarracín, subdiretor do Centro de Investigação Colombiano de Justiça. A onda de protestos abarca o descontentamento com a classe política dirigente e a desconfiança nas instituições públicas. O clamor de milhares de jovens que não se sentem representados nem pelo Governo conservador no poder, que segue a estrela e as diretrizes do ex mandatário Álvaro Uribe Veléz [4], nem pelo principal candidato opositor, o esquerdista Gustavo Petro. Mas suas vozes também são retratos das carências sociais da segunda nação mais desigual da América Latina. “Antes da pandemia tiveram provavelmente os maiores protestos contra um governo em todo o país.” Relembra Albarracin sobre a greve nacional de novembro de 2019 [5], que perdeu forças devido às restrições impostas pela pandemia. Desde então ocorreram muitas mobilizações, como os protestos contra a violência policial no caso do assassinato do advogado Javier Ordoñez, gravado em vídeo. Um dos distúrbios que deixou dezenas de mortos em enfrentamentos com a polícia de Bogotá. Ou a chegada dos indígenas à Plaza Bolívar para conversar com o presidente, que se negou a sentar com as comunidades para escutar suas demandas. “É certo que durante todo o ano as pessoas têm protestado desde suas casas”, disse Albarracin. “Para onde se dirige a marcha?”, alguém perguntou a um grupo que se manifestava na quarta. “Para casa, porque nos matam”, respondeu um jovem com uma faixa com os dizeres: “A resistência não é um capricho, é um ato de dignidade”. Mas nas ruas do país também há medo. O temor de não voltar para casa vivo, exacerbado nos últimos dias pela massiva mobilização policial e por mensagens incendiárias do político Álvaro Uribe Vélez, em apoio ao uso da força militar para sufocar os protestos. O trabalho sujo é feito por centenas de policiais em motos, patrulheiros que chegam ao fim do mês com um salário mínimo colombiano, um pouco mais de 220 euros. “Gente pobre com uniforme matando gente pobre com fome, dirigidos por gente rica sem fome e sem uniforme”, se podia ler em um cartaz. Militares armados patrulham os bairros. É frequente o uso de gás lacrimogêneo ou o acionamento do ESMAD (Esquadrões móveis antidistúrbios) para atacar os manifestantes ou até disparar balas reais, enquanto as autoridades colombianas recebem silenciosamente a condenação internacional. Já temos mais de vinte e quatro mortos durante as marchas, segundo números oficiais da Denfesoría del Pueblo. Contudo, já se somam trinta e sete segundo denunciam os organismos de direitos humanos. Uma mãe em Ibagué lamenta frente ao corpo imóvel de seu filho: “Leva-me contigo, amor”. Aos protestos também se uniram camponeses, afro-colombianos das periferias e indígenas dos territórios e das áreas rurais do país. “Queremos avançar sobre a possibilidade de um diálogo entre todos os setores sociais que permitam alcançar a paz. La Minga indígena [6] (uma forma de protesto das comunidades indígenas do país) é um exercício coletivo de pensamento e palavra para tecer uma nova proposta de nação”, diz Giovanny Yuli, ativista político do Consejo Regional del Cauca (CRIC) [7], em Cali, onde se decidiu o apoio às mobilizações e onde se está vivendo os confrontos mais violentos e a maior repressão das forças de segurança contra os manifestantes. No país mais letal para os defensores da terra, com 64 assassinatos de líderes ambientais em 2019, segundo o último informe da Global Witness [8], eles também tomaram as ruas com bandeiras brancas pedindo paz, depois de mais de três décadas de conflito armado. Considerando os acordos de paz de 2016 com a ex-guerrilha das FARC e o governo do então presidente, Juan Manuel Santos, o conflito se perpetua naqueles territórios onde o Estado apenas tem presença, mas os grupos armados ilegais que marcam a lei. Como explica o analista de dinâmicas sociais e conflitos, Luis Celis, a sociedade colombiana tem trabalhado pela paz e pela transformação do país: “Mas esse governo não tem tido nenhum interesse em desenvolver os acordos porque o uribismo é a força política que defende essa ordem de exclusões. Esse acordo de paz segue sendo uma tarefa pendente e se soma à insatisfação existente nas ruas”. Os protestos incluem a insígnia colombiana acenando nas varandas de bairros ricos, panelaços noturnos e velórios para os mortos; delegacias de polícia queimadas e barricadas nas estradas após tumultos que proliferam ao anoitecer. "O governo tem a tática de criminalizar o protesto através da estigmatização das pessoas que saem para se manifestar, o que se torna uma prática comum. Isso visa legitimar o uso excessivo da força pela polícia", critica Alejandro Rodriguez, da organização Temblores, plataforma que registra os abusos e violações de direitos no marco dos protestos. As atuais mobilizações são também a representação nas praças de todo país, daqueles panos vermelhos que, durante o último ano, eram pendurados nas janelas dos bairros populares sufocados pela crise econômica acentuada pela pandemia. “A sociedade colombiana é uma sociedade profundamente desigual. Temos uma ordem social cheia de exclusões: existe exclusão de terra, exclusão de conhecimento, exclusão do crédito”, aponta Celis. Mais de 42,5% da população colombiana está em situação de pobreza e 7,5 milhões de pessoas padecem de pobreza extrema, segundo o Departamento Administrativo Nacional de Estadística (DANE). Em uma nação de 50 milhões de habitantes, o trabalho informal representa um 48,7 do mercado de trabalho. “A riqueza na Colômbia se concentrou em poucas mãos, existe uma enorme fragilidade social que em meio da pandemia se expressa como fome”. Continua o analista colombiano. “O que começou com tom reivindicativo contra o que denominamos “pacote de Duque” vem assumindo dimensões políticas de esgotamento do regime atual, em particular com o uribismo, com a extrema direita”, relata o líder social e político Diego Pinto, que acrescenta que as ruas exigem a renúncia imediata do presidente Iván Duque, cuja aprovação caiu 16 pontos no último mês. Um declínio que se deve em parte à reforma tributária e ao manejo da pandemia, segundo uma pesquisa de Guarumo-EcoAnalítica. Nesses dias, nos bairros populares preparava-se, em potes comunitários, o tradicional sancocho colombiano, uma sopa feita com os alimentos mais representativos do país: mandioca, banana, batata, milho, coentro, frango e abacate, cozido em uma panela grande ao fogo baixo. Um sancocho também é uma expressão colombiana para chamar uma situação que tem problemas muito diferentes, nem sempre com relação entre si. Essa analogia culinária pode ser a metáfora para as mobilizações massivas que, como a sopa tradicional, foram cozidas em uma panela grande com a pressão que é a Colômbia. Notas (originais e da tradutora): [1] Original:“Para el pueblo liberación, para el pueblo lo que es del pueblo, para el pueblo se lo ganó” (nota da tradutora). [2] Matéria com imagens e vídeos da repressão policial disponível em: https://www.lamarea.com/2021/05/05/continua-sangria-victimas-en-colombia-al-menos-19-manifestantes-muertos/ [3] https://www.lamarea.com/2021/05/05/continua-sangria-victimas-en-colombia-al-menos-19-manifestantes-muertos/ [4] Álvaro Uribe foi presidente da Colômbia entre 2002 e 2010. Reconhecido como conservador, de direita e por se opor ao diálogo com o ex-grupo guerrilheiro FARC. Após o fim do seu mandato presidencial intensos diálogos entre o poder público e os guerrilheiros mostraram um caminho possível para a construção da paz. Esse diálogo foi interrompido por Iván Duque, o que traz muitos problemas para a população pobre e camponesa. Além disso, Uribe respondeu a processo que resultou em prisão domiciliar por sua relação com milícias paramilitares, levando a manipulações, violências e ameaças. As concepções de Álvaro Uribe, em muito inspirando o atual regime e a extrema direita colombiana, ganhou o nome de uribismo (nota da tradutora). [5] https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-50520302 [6] https://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-54625586 (nota da tradutora) [7] https://www.cric-colombia.org/portal/ [8] https://www.globalwitness.org/es/defending-tomorrow-es/ *Marina Sardiña é jornalista e colaboradora do La Marea. https://twitter.com/marinasardina_ Publicado originalmente em https://www.lamarea.com/2021/05/06/colombia-retrato-de-un-pais-que-se-levanta/ Tradução: Flavia Veras, professora doutora em história e editora da revista Mulheres do Fim do Mundo. Imagem de capa: Protestas en Colombia. MARINA SARDIÑA, acesso em https://www.lamarea.com/2021/05/16/la-represion-no-consigue-acallar-las-protestas-en-colombia/

As “Cloroquina Squares” do Brasil de quase meio milhão de mortes
As “Cloroquina Squares” do Brasil de quase meio milhão de mortes

Larissa Riberti* A reabertura gradual do comércio e a retomada das atividades suspensas por decisões de governos municipais e estaduais – que buscam frear a segunda onda da pandemia de coronavírus – têm suscitado uma série de embates e confrontos entre os que apoiam a flexibilização das regras de isolamento e os que defendem a continuidade das medidas restritivas. Um impasse desnecessário, visto que, numa pandemia, nossa preocupação fundamental deveria ser a garantia da vida. Porém, num país onde o governo federal se desresponsabiliza da tarefa de instituir políticas públicas como as que garantissem o emprego e a renda de grande parte dos brasileiros, a queda no padrão de vida faz com que muitos trabalhadores se oponham a medidas que poderiam ser mais efetivas no combate à pandemia. O cenário é catastrófico! Não bastasse a crise sanitária, temos uma crise social, do mundo do trabalho, do desemprego, que reflete o desespero dos brasileiros pobres e da classe média baixa ao verem sua renda cair e o custo de vida aumentar. Para muitos, não resta outra alternativa a não ser implorar pela “possibilidade de trabalhar”. Esses trabalhadores, e me refiro àqueles que não atuam na chamada linha de frente ou nos serviços essenciais, mas aos que prestam serviços gerais, atuam no comércio, têm empregos informais e vivem de pouca renda, são influenciados por um jogo duplo. Por um lado, são diretamente afetados pelas consequências da omissão do governo comandado por Jair Bolsonaro. Não custa lembrar que, não fosse a pressão das bancadas de oposição no legislativo, o Auxílio Emergencial seria reduzido a um cartaz de propaganda política, cujo valor seria ainda mais aquém daquilo que foi pago nos meses anteriores. Assim, aos brasileiros foram negadas as condições ideais de sobrevivência em meio a um estado de exceção provocado pela pandemia. Por outro lado, os trabalhadores são diariamente bombardeados, desde o início da crise sanitária, por informações que lhes dão uma falsa sensação de virtude e resistência ao continuarem e desejarem trabalhar nessas condições de risco. Impossibilitadas de fazer o lockdown ou de trabalharem em casa, essas pessoas foram profundamente influenciadas por narrativas que disfarçam a exploração e a precarização do trabalho com a ideia de que as atividades desempenhadas por elas são “essenciais”. Funções que adquiriram a falsa caraterística de “indispensável”, mesmo quando se referem às tarefas desempenhadas pela faxineira da casa da madame, pelo cuidador do pet da vizinha, pelo motorista do filho do patrão, pela recepcionista da clínica de estética, pelo instrutor da academia, pelo garçom da cervejaria artesanal. À tal narrativa não se nega a paternidade. Em março deste ano, o presidente Jair Bolsonaro escreveu em seu perfil do Facebook: “Atividade essencial é toda aquela necessária para um chefe de família levar o pão para dentro de casa!”. Assim, estimulando a ideia de que, se não trabalharem, esses trabalhadores morrerão de fome, o chefe do governo federal se aproveitou da desobrigação de suas próprias funções, e jogou nas costas dos brasileiros pobres a tarefa de lutar pelo seu próprio sustento, ainda que isso lhes custasse a vida. Daí o grande apelo popular pelo retorno de atividades não essenciais, pela reabertura do comércio, de bares, de escolas, de shoppings centers. A construção dessa ideia, que pretende fazer desses trabalhadores “heróis” por resistirem ao isolamento, teve (e tem) a decisiva participação de setores da nossa sociedade, como parte da grande imprensa, empresários, parcelas da classe média. Os membros da elite foram uníssonos em defenderem a exposição dos trabalhadores, maquiando suas intenções com uma falsa valorização do trabalho. Para isso, disparam correntes e fake news nas redes sociais, financiam propagandas na televisão e nos outdoors, vestem a camisa (literalmente), organizam protestos – na segurança de seus carros 0km – e influenciam os “subalternos” fazendo com que estes acreditem que são realmente “essenciais”, que sem eles “o Brasil para”. Pura canalhice de quem explora o trabalho alheio, mas que em nenhum momento se preocupa com as necessidades e a saúde dos trabalhadores. Prova disso é que grande parte dessa elite pode ser facilmente encontrada nos locais que voltaram a abrir recentemente: pontos turísticos, bares, shoppings, restaurantes, praias... Do auge do seu privilégio de classe, desfrutam a vida durante e aos finais de semana a despeito das mais de 400 mil mortes e de mais de 15 milhões de casos de Covid-19. Certamente, entre as centenas de milhares de falecidos estão muitos daqueles que foram influenciados pelo perverso discurso da “indispensabilidade” de seus trabalhos. Perfis das redes sociais ilustram o fato, reunindo imagens e vídeos de festas clandestinas, aglomerações, reuniões de final de semana, bares, restaurantes. Nas denúncias há algo em comum: todos os lugares estão lotados de pessoas que se divertem como se não houvesse um vírus de alta letalidade à solta. Dentre tantas, destaca-se a imagem de uma praça central de Tiradentes, cidade histórica do interior de Minas Gerais. Chamam a atenção os elementos caricatos do enredo: homens e mulheres, majoritariamente brancos, desfilam em carros novos e em suas roupas caras para a estação do frio. Ocupam cada um dos espaços disponíveis, sem máscara, bebendo e comendo, não deixando absolutamente nenhuma margem para que se cumpra algum protocolo de distanciamento. É a “Cloroquina Square”! Nessa cidade quase cinematográfica, que remete ao auge da mineração no período colonial, figuram ainda as peças centrais de um Brasil atrasado, irresponsável e elitista. Se no passado fomos marcados pela exploração da mão de obra escravizada, negra e indígena, no presente temos os filhos da elite que se aglomeram colocando em risco aqueles que não têm alternativa senão servir para tentar sobreviver: os trabalhadores. A “Cloroquina Square” é, portanto, o lugar onde se reúne essa elite que defende a “essencialidade” do trabalho alheio, mas que cumpre suas tarefas na segurança do home office. Uma gente egoísta e inconsciente que, incapaz de assumir seu papel na coletividade, defende uma vulgar noção do direito de ir e vir no seu sentido estritamente individual. Essa sobreposição de imagens deixa evidente o nível da luta de classes existente no Brasil dos dias atuais. Uma realidade que transcende qualquer projeto de governo, ainda que a atual gestão de Bolsonaro endosse e estimule as ações arbitrárias dos individualistas. Mas, é de se suspeitar que, tivéssemos no poder um presidente responsável e preocupado com o bem-estar de toda população, certamente ainda teríamos que nos confrontar com uma elite pronta a “fazer suas próprias regras”, a aglomerar e colocar em risco as vidas que eles consideram menos necessárias. A “Cloroquina Square” é justamente a metáfora que revela o estilo de vida e o potencial destrutivo dessa parcela da nossa sociedade. E, pelo que denunciam as redes sociais e as reportagens publicadas pelos veículos de comunicação, brotam “Cloroquina Squares” num país de quase meio milhão de mortos pela Covid-19. *Larissa Riberti é professora Doutora da área de História Contemporânea da UFRN, pesquisa movimentos sociais, armados, sociedade, política e gênero na América Latina.

Mãos Livres
Mãos Livres

#literatura #contos #poesia #arte PARA CRIANÇA QUE VOCÊ FOI! Lucilene Soares* Me cortou o coração a infância que você teve, ou não teve, e a menina que você não pode ser! Tive vontade de te acolher e te proteger de toda dor que te abateu. Busquei na minha resistência de mulher negra um aconchego para você descansar, um lugar de sonho e lembrança, ainda que de “lembranças desejos” de um ontem mais doce e um por vir de abundância. Receba estas singelas palavras que remetem à infância e acolhida à menina que ainda te habita. Vamos juntas acolhê-la e nutri-la, pois ela é divina! Gratidão por você existir, gratidão por você resistir! Acorda Letícia Sonhei com você Estava calor e você a girar Sua saia voava Tra Trav Travessa Traquina Sonhei com você ainda menina Levanta Letícia Descortina os horizontes Voa bem alto Semeia seu ser Porque Você é Tra Trave Travesti Vestida de mundo Vestindo este mundo De beleza e presença Subverte o vigente Nos ensina a ser Ainda mais gente Desperta Letícia Receba a infância que Dolorosamente revelou que não teve Te vejo menina E ouso sonhar Um mundo mais lindo pra você habitar Desejo a você Bordado Batom Beijo na boca Amigos Amor e Axé Levanta minha pequena ancestral Abre caminhos Que outras virão Transformando este mundo Num lar para todas Afinal. *Lucilene Soares - Mãe de Arthur e Luna, professora da rede pública estadual de Curitiba/PR, com mestrado em Educação. É atriz, poetisa, terapeuta integrativa do Espaço Terapêutico Metamorfose, militante antirracista, do feminismo negro e da cultura popular. Instagram: @lu.soares.100 DAN’AMOR Célia Regina da Silva* Maira acordou assustada, um pouco ofegante. Tinha ido dormir altas horas da noite. Teve noite de sono agitada, sonhou muito. Eram sonhos que se repetiam, com frequência, recorrentes. Ao acordar, sentia muitas sensações diferentes, sem saber direito o que era. Ela que, às vezes, demorava para lembrar dos sonhos, nesta manhã, se recordava plenamente de todos os detalhes. A cobra era enorme. De pele azul cintilante, adornada por grossas escamas, de tamanho nunca visto, tomava vários degraus da escada. Não sentiu medo, senão fascínio, vontade de se enrolar com ela, se arrastar, se envolver, acompanhando o movimento contínuo e frenético da cabeça e língua. Ela morava com avó, foi criada por ela, mas evitava falar sobre seus sonhos com Dona Gabriela. Nas primeiras vezes, chegou a contar para a avó que, muito católica, fez alusão imediata à cobra mítica, a serpente falante do Jardim do Éden. - Minha filha, quando moça eu também tinha esses sonhos. - Sonhava com cobra grande, pequena. Enrolada no meu corpo, mas a que mais gostava é que se transformava em arco-íris. Essa era a que tinha mais medo. Como pode? Não à toa, ela enganou Eva, a fez comer do fruto proibido. Foi o suficiente para Maira entender que não poderia falar mais sobre seus sonhos com a vómãe. Logo ela que recentemente tinha se descoberto preta, em família nordestina miscigenada. Estava lendo tudo sobre África, sobre os deuses que foram trazidos para o Brasil, por escravizados no chão dos navios negreiros. De homens e mulheres que trouxeram na memória e no coração os ensinamentos das divindades milenares africanas. Pensativa, resolveu não trabalhar pela manhã. Aproveitou que estava sozinha em casa. A avó tinha saído para visitar uma amiga. Fez café. Voltou para o quarto e resolveu ler livro comprado recentemente. Na primeira página aberta, linda imagem de Oxumarê. O orixá representado pela cobra arco – íris, símbolo do movimento, da transformação, da riqueza e da fortuna. Uma força imensa toma conta do seu corpo, sem controle. Ouve barulho de chuva. Corre e abre a janela. Após chuva forte e rápida, o arco colorido desponta no céu. Sente refletidas em seu corpo todas aquelas cores. Elas penetram em seus poros, em seus pelos, na sua cabeça, pelo seu corpo, em seu coração. O amor estava ali, pulsante, transcendente, magnânimo. Deu-se o encontro de si, encontro encantado com o eu. "Célia Regina da Silva – Jornalista carioca, professora e pesquisadora da UFSB. Feminista negra, acredita na potencialidade do diálogo intercultural entre as várias vertentes artísticas e literárias. Vislumbra a escrita como libertação. Coordena o Grupo de Pesquisas e Estudos em Negritude, Gênero e Mídia - GEMINA/ UFSB – CNPq. Fez parte do Processo Formativo - FLUP Pensa - Narrativas Curtas "Uma Revolução Chamada Carolina", iniciativa da Festa Literária das Periferias/2020, que resultou no livro Carolinas, Ed. Bazar do Tempo, 2021. Com o Conto "Do Lixo a Ressurreição” foi contemplada com quinto lugar, no Concurso do Movimento Literário Digital - Motus, Projeto de Extensão da Universidade Federal do Pampa, 2020. Instagram: @celregins (SEM TÍTULO) Maria Helena Miranda* Quero a criança Não o adulto que cansa, sufoca. Quero a criança Não a miniatura de adulto Sem o mínimo contágio com o vírus O maldito vírus da maturidade. Quero a criança livre E só quero a criança. Que não me procurem os grandes E que as crianças venham sozinhas. A elas prometo, Despindo-me de tudo que é “grande” Ser criança também. *Maria Helena Miranda - Quase 66 anos, aposentada (não da vida), apesar de tudo, insistindo na esperança. A HISTÓRIA DO GOZO Sheila Lopes Leal Gonçalves* Parte I Na Ritz Vejam vocês, Marisa estava morando em Botafogo. Descolou um trampo como babá - conseguiu conciliar com o permanente ofício de “vendedora da Avon”. Agora, quem conhece Marisa assim, na superficialidade de seus sorrisos de botequim, podia imaginá-la (ah, a gente sempre imagina figuras como Marisa) quase como uma garotinha-zona-sul; ela, que até pouco tempo era orgulhosa moradora de Paracambi. Ninguém tem a real dimensão do que era morar num quarto alugado na casa de um sujeito machista, misógino, careta e covarde, trabalhando 13 horas por dia, gastando cada centavo de seu salário para experimentar (voluntariamente, ou melhor dizendo, antropologicamente) os agouros da vida burguesa com gostinho de maresia ao final de cada provação etílica. Bem, Marisa achava (e talvez ainda ache) que ninguém tinha noção do que era isso, que ninguém entendia nada do que ela sentia ali naquele cotidiano de sobrevivência, e disso se queixava aos montes - em silêncio. E quem acreditaria se contassem que viram Marisa, numa manhã particularmente quente e bela, a caminhar pela Voluntários da Pátria com olhos marejados de dor e desespero, a desejar colo e conformismo?! Isto porque Marisa é leve de obrigações da vida normativa, especialmente no que diz respeito à profissão: nem cogitou ensino “superior”, paga uma modesta previdência privada e, muito filósofa, acha que “dinheiro é pra gastar e vida é pra viver, entendeu?, sem mimimi, sem ninguém para te bancar, e aí não podem manipular” [sic]. É leve e gosta de rir de tudo, de todas as dores, as suas e as alheias. E lá estava ela, linda, independente, com uma puta dor de dente, sem um centavo no bolso ou qualquer vestígio de sarcasmo no rosto. Apenas a alguns metros do trabalho se percebeu olhando para a Unidade de Pronto Atendimento com algum interesse. Não cabe aqui narrar o que ela pensou sobre o sistema de saúde público da cidade do Rio de Janeiro, em parte porque a indignação de quem depende dele é tão unânime e pública que seria redundante acrescentar mais um lamento. Lamento esse que frequentemente vem com um traço de culpa: como falar mal de um sistema que salva vidas? Como reclamar do direito ao acesso gratuito à saúde? Será que quem passa 12 ou 15 horas numa sala escura e fria, sofrendo com dor, sem saber quando será atendida, pode reclamar sem parecer ingrata? Mas enfim… Em parte, grande parte, não cabe narrar simplesmente porque não sei, precisamente, o que se passava por aquela cabeça – Marisa não é criação minha, não é personagem parida da narradora, ela pertence ao mundo e àqueles capazes de enxergá-la. Aliás, esta história, ouvi da boca dela, num bar em Maria da Graça. O atendimento foi rápido. Diagnóstico: olha, acho que é virose... brincadeira... pode ser o sizo... pode... e porque você ainda não tirou esses sizos... que estranho... bom, pode ser um canal... quantas vezes você usa fio dental [nota mental pervertida na cabecinha de Marisa]... sei... mas pode ser uma inflamaçãozinha na gengiva... coisa básica... é... eu sei que tá doendo... vou de dar um remedinho óootemo... mas é... você tem que procurar um dentista particular... é... eu sei.... mas aqui eu não tenho recursos pra examinar.... aham... sei... posso te dar um encaminhamento prum posto pra depois você ir de repente prum hospital, mas até lá minha filha... já era sua boquinha... Com uma risadinha cínica o dentista deu um encaminhamento para fazer radiografia e um endereço em Copa, de um camarada, que trabalhava com preços populares. A “avenida copacabana”, como dizem os antigos em menção à Avenida Nossa Senhora de Copacabana, sempre conservou (ou concentrou) seu melhor e inegável caos nos quarteirões entre as ruas Santa Clara e Siqueira Campos, muito, mas muito antes de qualquer ideia de metrô. Rasgando o bairro, antes como navalha do que como aorta, esse passeio público abriga todos, dentre os inúmeros, estereótipos outrora poetizados, cada qual em seus respectivos trechos. Um sujeito incauto, que se atém à certeza do trocador do ônibus quando este diz que para chegar ao número 500 da Avenida você tem que descer no ponto da Barata Ribeiro, perto da Dias da Rocha, vai chegar atrasado em seu compromisso, mas, se vale de consolo, poderá desfrutar de uma elegante caminhada pela desordem urbana no compasso dos (nem sempre simpáticos) aposentados. Marisa, esperta e moderna, saiu do metrô na Figueiredo e, no tempo de uma trovoada, estava em frente ao número 610: Galeria Ritz, edifício que nasceu para sepultar o charmoso cinema dos anos 1950. Para ter acesso ao oitavo andar era necessário passar pelo combinado semipsicodélico, multicolorido, sob vacilante luz amarela, e que engloba todo o tipo de comércio conhecido pelos seres humanos (minha sobrinha jura que certa vez viu uma moça muito “pintada” vendendo dois coelhos brancos nos primeiros degraus da escada). A Ritz é como a imagem que Hollywood nos passa de Bangkok. (Continua na próxima edição) * Sheila Lopes Leal Gonçalves - É editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, doutora em História, professora, amante da autoanálise e, nas horas vagas, sonha em ser escritora. Instagram: @leal.sheila | twitter: @sheilalopesleal MITOS DE GUARDA-CHUVA Letícia Pereira* Fotografei Um morro E sua história¹ De negro, de luta Uma prova de amor Suave salto mortal. A história do morro A minha Na cruz de Inácio Trovas de amor Por de soís Nascer de luas Um despencar lá de cima. Histórias, imagens, lembranças... Ais (quase mortais). ¹ Referência ao mito do Pai Inácio, um escravizado, que, no séc. XIX, se apaixonou pela filha de um poderoso fazendeiro, sem aprovação da família, ele passa a ser perseguido e escapa da morte pulando do morro com o guarda-chuva dado pela amante. Reza a lenda que ele passou a viver escondido entre as pedras do Morro, que leva o seu nome, na Chapada Diamantina/BA. *Letícia Pereira – É soteropolitana, editora da Revista Mulheres do Fim do Mundo, professora, doutora em Literatura e Cultura pela UFBA, com pesquisa na área de Literatura Afro-brasileira e Cinema Negro, realiza (e participa) de Oficinas de Criação Literárias em espaços alternativos de aprendizagem em Salvador/BA. Instagram: @leticiapereira_ba *Arissana Pataxó - É artista plástica formada pela Escola de Belas Artes e mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA. É natural de Porto Seguro/BA, pertence a etnia Pataxó e reside em Coroa Vermelha, onde atua como professora de Arte no Colégio Estadual Indígena. Desenvolve uma poética sobre povos indígenas e a contemporaneidade, utilizando de diversas técnicas artísticas, desde pintura à fotografia. Instagram: @arissanapataxoportfolio | arissanapataxo.blogspot.com

Tá rolando...
Tá rolando...

Confiram aqui a nossas recomendações para a 10ª edição: I ENCONTRO DE EDUCAÇÃO POPULAR FEMINISTA DA AMAZÔNIA: Estão abertas as inscrições para participação no I Encontro de Educação Popular Feminista da Amazônia. Ainda que o prazo de submissão de trabalhos tenha expirado no dia 15 de maio, é possível se inscrever como ouvinte do evento até o dia 17 de agosto, ”. O I Encontro de Educação Popular feminista tem como finalidade promover a produção do conhecimento cientifico em diálogo com diversos saberes atravessados por afetos e sentimentos, promovendo espaços de diálogos entre diversas vivências, dores e conhecimentos, presente na formação humana e nas das identidades femininas. O tema do evento, “A Urgência de uma Prática Educativa Popular Feminista Antipatriarcal, Antirracista, Anticapacitista e Anticapitalista”, é de fundamental importância para pensarmos, fortalecermos e identificamos diferentes práticas de educação popular feminista, especialmente, neste contexto que avança o conservadorismo, o machismo e o aumento da violência com as identidades femininas. A metodologia construída para o encontro baseia-se nas referências da ação participativa e nas epistemologias feministas, ambas possuidoras de uma proposta coletiva do conhecimento. O encontro contará com diversos momentos de produção, debates e vivências, por meio das oficinas, círculos de saberes e mesas de conversação. O encontro tem como prática colocar as diversas vozes e de múltiplos lugares em movimento, em partilha e em sintonia, priorizando a escuta sensível no processo de sistematização. Link para a página do evento: https://i-encontro-de-educacao-popular-feminista-da-amazonia.webnode.com/ 2. O QUE DISSE EURÍDICE: Segundo descrição dos autores, trata-se de uma coluna “multimídia e interativa, que investiga a escrita de autoria feminina e os regimes autoritários. Ela é assinada coletivamente por Natália Guerellus, Roberto Rosa e Simeia dos Santos. Apesar de cada resultado apresentar um responsável, os livros são lidos e discutidos em grupo, e toda a produção é decidida e aprovada coletivamente”. A coluna apresenta: 1) Revista ilustrada, com arte e edição de Roberto Rosa e roteiro de Natália Guerellus, Roberto Rosa e Simeia dos Santos; 2) Resenha comentada, por Simeia Santos e 3) Podcast, com roteiro, montagem e edição de som por Natália Guerellus, revisão e entrevistas por Natália Guerellus, Roberto Rosa e Simeia dos Santos. A primeira edição enfoca o livro Cisnes Selvagens: três filhas da China, de Jung Chang. O material fica no site História da Ditadura e pode ser acessado no link: https://www.historiadaditadura.com.br/o-que-disse-eur%C3%ADdice?fbclid=IwAR1_iCfaLG32f4gWDPQPgLzJRqrPGW9mbN0HCvEPGUU-BCGVNEG340wXl1g 3. MULHERES QUE ESCREVEM PODCAST (EPISÓDIO 19: #19 - Adelaide Ivánova (Leituras de Resistência 1) O Mulheres que Escrevem Podcast é um programa quinzenal de leitura e debate de literatura oriundo da iniciativa de mesmo nome, que realiza curadoria, divulgação e edição de conteúdo produzido por mulheres desde 2015. O programa é desenvolvido por Seane Melo, Estela Rosa, Natasha Silva e Taís Bravo. Confiram no spotify: https://open.spotify.com/show/5uMkyKZIpI2jAK9kT76eIY 4. COLETIVO OUTRAS BÁRBARAS: Coletivo de ajuda mútua para mulheres que sofreram, sofrem ou conhecem alguém que sofreu violência doméstica. Trata-se de um grupo de escuta, acolhimento, estudo, aconselhamento e, quando possível, encaminhamento jurídico, médico, assistencial etc. O grupo foi concebido por Patrícia Valim, professora do departamento de história na Universidade Federal da Bahia (UFBA), com anos de militância feminista de esquerda. É coordenado por Patrícia Valim e Gabriela Mitidieri. Quem quiser participar, colaborar na construção do coletivo ou ter mais informações, é só mandar um e-mail para outrasbarbaras@gmail.com , indicando nome e número de whatsapp para inclusão no grupo. 5. TERAPIAS.CONEXÕES: SERVIÇO DE SAÚDE ALTERNATIVO E HOLÍSTICO Lívia Mendes é graduada em veterinária pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) e tem ampla formação em tarot e terapias holísticas. Atualmente, divide seus atendimentos em: 1) terapia holística: a conversa é o ponto principal, com duração de uma hora. Os recursos possíveis são reiki, floral de Bach, cristais ou yoni egg, de acordo com as necessidades dx consulente; 2) atendimento padrão de tarô: uma hora de chamada de vídeo, para entender os processos dx consulente e orientar tomadas de decisão de forma mais consciente e segura; 3) tiragem específica: tiragem de tarô completa sobre uma área da vida. A análise é feita a partir da questão posta e são enviados áudios explicativos por whatsapp; 4) combo salva-vidas de tarô: mensal. Energia do mês com conselho, 4 perguntas respondidas por mês e 10% de desconto em qualquer outro atendimento; 5) mandala astrológica do tarô: tendência para seu próximo ano e para diversas áreas da vida. O atendimento é feito por fotos e áudios explicativos no whatsapp, enviados em até 4 dias após o pagamento. 6) curso de tarô: para quem quer um primeiro contato ou já trabalha com tarô. É feito por videochamada e é disponibilizado material em pdf. Maiores informações e detalhes sobre estes atendimentos e pagamentos, no instagram @terapias.conexão

Júlia Medeiros: do esplendor à penumbra*
Júlia Medeiros: do esplendor à penumbra*

Feminista, professora, atuante no jornalismo e na vida pública caicoense; doente e vil, foi nomeada de “Rocas-Quintas” Júlia Augusta de Medeiros nasceu em 28 de agosto de 1896, em Caicó, estado do Rio Grande do Norte. Filha de Antônio Cesino de Medeiros e Ana Amélia de Medeiros, Júlia Medeiros era de origem rural, mas graças ao apoio de sua família e do seu espírito transgressor, conseguiu superar as adversidades e ingressar no Colégio Nossa Senhora da Conceição (CIC), instituição localizada na cidade de Natal, Rio Grande do Norte, dedicada ao ensino das meninas da capital. Posteriormente, desejando ser professora, ingressou na Escola Normal de Natal. Em 1926, retornou a Caicó e passou a lecionar no Grupo Escolar Senador Guerra. Nessa época, ela integrou o Jornal das Moças – o primeiro periódico exclusivamente feminino da cidade de Caicó –, em que reivindicava a inserção das mulheres nas Letras e na vida pública. O jornal tinha publicação semanal e era dedicado ao interesse da mulher. Sua circulação iniciou-se no dia 07 de fevereiro de 1926, na cidade de Caicó. Além de ser editado pela professora Georgina Pires e gerenciado por Dolores Diniz, o periódico ainda contava com as redatoras Santinha Araújo, Maria Leonor Cavalcante, Julinda Gurgel, como também várias moças da sociedade caicoense. Esse grupo de mulheres escreveu sobre literatura, humorismo e críticas com relação à condição da mulher na sociedade norte-rio-grandense. Ainda no que tange à sua atuação na imprensa potiguar, Júlia Medeiros também colaborou para a revista Pedagogium, órgão oficial da Associação de Professores do Rio Grande do Norte. Segundo o jornal A República (13 de março de 1926), a professora Júlia Medeiros escreveu, em 1925, um artigo intitulado “A missão da mulher”, em que ela questiona o papel da mulher na sociedade. Na cena cultural do estado do Rio Grande do Norte, a sua atuação era plural, uma vez que, além de professora, Júlia Medeiros era também responsável pela produção de pequenos dramas teatrais na cidade. Por volta de 1940, passou a conciliar as práticas pedagógicas com a direção do Hospital do Seridó, tornando-se a primeira mulher a ocupar esse posto. Ademais, atuou como vereadora de 1950 a 1958. Em 1960, perdeu a lucidez e foi levada, pela família, para Natal, na tentativa de restaurar sua saúde. Entretanto, não se recuperou e passou a perambular como mendiga, justificando seu apelido “Rocas-Quintas”, em referência à linha de ônibus que realizava o mesmo trajeto feito por ela. Excluída e esquecida, morreu em Natal em 29 de agosto de 1972, onde foi sepultada. Júlia Medeiros viveu de 1896 até 1972, em uma sociedade brasileira em que à mulher cabia, quase que exclusivamente, as posições coadjuvantes. No entanto, mesmo com a educação restrita aos homens, teve o privilégio de estudar em Natal, tornando-se professora. Ao regressar a Caicó, dedicou-se ao magistério desvinculando-se das estruturas sociais femininas do Seridó, as prendas domésticas. Vista como “louca”, Júlia Medeiros transgrediu a condição da vida privada imposta às mulheres: atuou em um periódico feminil, em que reivindicou os direitos negados ao público feminino e o letramento das camadas populares, se recusou a casar-se e foi a primeira mulher de Caicó a dirigir um automóvel. Além disso, administrou uma instituição pública na cidade e se elegeu vereadora. Sendo assim, a professora foi uma figura ilustre de sua era, por romper paradigmas sobre o espaço da mulher. Todavia, não teve destaque na história hegemônica, registrada a partir de padrões que reprovavam o seu protagonismo. Com a sanidade mental comprometida, vivendo como mendiga pelas ruas de Natal e fadada ao esquecimento, terminou seus dias como “Rocas-Quintas”, sucumbindo consigo a imagem irreverente de Júlia Medeiros. *A autoria do texto é atribuída a um trio de alunos, da Escola Agrícola de Jundiaí (EAJ - UFRN), composto por Ana Dandara Vieira Brito, Maria Helena Silva no Nascimento e Anderson Kaian de Lima Maniçoba, sob a orientação da professora e historiadora Maiara Juliana Gonçalves da Silva para a Olimpíada Nacional de História do Brasil (2019). O texto original foi publicado no Dicionário de verbetes Excluídos da História, organizado pela ONHB e disponível em: https://www.olimpiadadehistoria.com.br/especiais/excluidos-da-historia/verbetes/398 Sobre os autores: Ana Dandara Vieira Brito tem 19 anos e é residente na cidade de Parnamirim, Rio Grande do Norte. É Técnica em Agropecuária pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e atualmente cursa Licenciatura em Química na UFRN. Anderson Kaian de Lima Maniçoba tem 19 anos e reside na cidade de Parnamirim/RN. É Técnico em Agroindústria pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente, é discente do curso de Odontologia da UFRN. Maria Helena Silva do Nascimento tem 18 anos e reside na cidade de Parnamirim/RN. É Técnica em Agroindústria pela Unidade Acadêmica Especializada em Ciências Agrárias da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Atualmente, está no cursinho pré Enem. Orientadora: Maiara Juliana Gonçalves da Silva é graduada no curso de licenciatura em História (UFRN) e de bacharelado em História (UFRN). Possui mestrado em História e Espaço pelo Programa de Pós-Graduação em História (PPGH-UFRN) e, atualmente, é aluna do doutorado em História na mesma instituição. Maiara Gonçalves é professora adjunta de História da Escola Agrícola de Jundiaí (UFRN) e é uma das editoras da nossa revista. Legenda da foto: Júlia Medeiros entre livros e papéis – Natal/RN (1925). Fonte: acervo particular de Manoel Pereira da Rocha Neto. BIBLIOGRAFIA: JORNAL DAS MOÇAS (1926-1932). Semanário feminino editado na cidade de Caicó, pelas professoras Georgina Pires, Dolores Dinis, Júlia Medeiros e um grupo de mulheres. FELIX, Ezequielda; MOREIRA, Aldo; FREIRE, Francisca Daise Galvão. Júlia Medeiros, peso na tradição, desejo de liberdade. Caicó, (Monografia) – Departamento de Estudos Sociais e Educacionais, Universidade Federal do Rio Grande do Norte,1997 MONTEIRO, Pe. Eymard L’Eraistre. Caicó: subsídios para a história completa do município. 2. ed. Natal: Nordeste Gráfica/ Sebo Vermelho, 1999. MORAIS, Maria Arisnete Câmara de. Leituras de mulheres no século XIX. Belo Horizonte: Autêntica, 2002. RIBEIRO, Caroline Lasneaux. Publicações femininas: Uma análise da representação das mulheres no Jornal das moças (1926) e na revista Marie Claire (2005). Brasília, (Monografia). Centro Universitário de Brasília. 2006. ROCHA NETO, Manoel Pereira da. Jornal das Moças (1926-1932): Educadoras em manchete. Natal, (Dissertação). Universidade do Rio Grande do Norte. 2002. ROCHA NETO, Manoel Pereira. A educação da mulher norte-rio-grandense segundo Júlia Medeiros. Natal, (Doutorado). Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 2005.