Edição 1

Ensaio: Por que as pedagogas são as mais burras?!
Ensaio: Por que as pedagogas são as mais burras?!

Juliana Taline Pereira Nogueira[1] “Professor no Brasil não sabe ensinar porque ele é burro...”, bradava um homem. Em seguida, ele focaliza seu alvo “ Sujeito que menos estudou na vida, sabe o que ele escolhe fazer no terceiro ano? PE-DA-GO-GIA! ...Pedagogo é o quê? Burro!”. LAMENTAVELMENTE este vídeo me chegou em 20 de maio de 2020, dia do(a) Pedagogo(a), via whatsapp. Um homem branco e medido olavista, importa dizer. Eu não problematizaria aqui discurso tão tacanho se ele não tivesse ressonância na mentalidade coletiva brasileira. Por que as pedagogas são mesmo tão burras? Eu não me pergunto, mas a pergunta está posta nas mentes de tantos outros profissionais, inclusive entre alguns docentes de outras áreas, infelizmente. Preciso dizer: eu não acho pedagogos e pedagogas burros(as), tampouco acredito que sua profissão mereça a desvalorização social, muito bem evidenciada na péssima remuneração que recebem esses profissionais, mais baixa que a média recebida por profissionais de outras áreas com mesmo nível de formação, mesmo entre professores. Eu também sei que a Pedagogia é exercida por mulheres, majoritariamente, ao menos no Brasil, mas que também o é por homens. Mesmo assim, afirmo o feminino porque entendo que a resposta da pergunta inicial é perpassada por preconceitos de classe e gênero, sobretudo. (Referência da imagem: Getty images) Para responder a famigerada, indignada e indignante pergunta, eu penso minha vivência enquanto pedagoga, rememoro experiências, passeio brevemente pela história da profissionalização desta área. Transito entre minha história, as histórias de outras professoras da infância (a Pedagogia tem outros campos de atuação, mas este continua sendo seu campo majoritário) e a história da educação no Brasil. Eu me percebo no mundo, mas também percebo o mundo em mim. Eu, corpo humano, corpo biológico, mente, emoções, histórias velhas e novas, ditas e não ditas, ouvidas e vividas, atravessadas pelo meu tempo, pela cultura, pelo tecido social, pelas estruturas econômicas injustas, pelos poderes institucionalizados. Assumo aqui que estou interessada na reflexão sobre visões estereotipadas que reproduzem preconceitos de classe e gênero e corroboram a vergonhosa condição de trabalho e formação das educadoras (mas também dos educadores) dos anos iniciais. Não posso deixar de contar-lhes que meu olhar é de uma pedagoga, que vem de uma família de trabalhadores assalariados e/ou informais, de duas gerações de professoras, dessas 6 pedagogas (entre tias e primas), atuantes na educação básica. Todas mulheres. Todas as primeiras mulheres com Formação Profissional (média, na primeira geração e superior, na segunda). Todas ocupando espaços outrora inimagináveis às mulheres, muito menos às mulheres pobres. Deste lugar, penso relações de classe e gênero na profissionalização da docência dos anos iniciais. Em uma longa trajetória de idas e vindas, negações e afirmações, tornei-me professora, professora Pedagoga dos anos iniciais e EJA.[2] Dois breves e importantes anos, objetos desta reflexão que não parou de ecoar em mim, desde que vi aquele vídeo onde agride-se ferozmente professoras dos anos iniciais. Afinal, são mulheres trabalhadoras, a maior parte de origens populares, submetidas a baixos salários e, tantas vezes, a relações de trabalho precárias. São alvos fáceis do machismo e classismo que estruturam as relações sociais nesse país. No país onde se faz essencial a leitura e incorporação prática da reflexão de Paulo Freire “Professora sim, tia não”.[3] Discutir a profissionalização do magistério nos coloca a questão central sobre como a carreira docente, nos anos iniciais, é um duplo espaço de resistência feminina - maioria até hoje neste espaço profissional - e de classe, bem como é espaço de ausência de políticas públicas, de valorização profissional e social, pois, sabemos, historicamente que, no Brasil, essa profissão – mais especificamente nos anos iniciais do Ensino Básico – sofre com desvalorização, salários baixos e a precariedade das condições e relações de trabalho. Frequentemente, professores da educação básica são mulheres, provenientes das camadas populares e proletárias, muitas vezes moradoras das comunidades onde exercem suas atividades, quando em escolas públicas de periferia. A situação muda quando nos referimos às escolas privadas de classe média alta para onde tantas professoras se dirigem de outros cantos da cidade.[4] Lancemos nosso olhar para o processo histórico da profissionalização do magistério, em suas relações de classe e gênero, e poderemos ver o quanto esse associou-se às mulheres, inicialmente, e depois às mulheres pobres, mais especificamente. Em 1827, a Lei de 15 de Outubro, criava as primeiras escolas primárias para o sexo feminino em todo o Império, onde se admitia mulheres para lecionar nas turmas femininas. Eram as primeiras vagas para o magistério feminino.[5] O magistério primário - como então era denominado - anteriormente espaço de homens religiosos, começa a se configurar como profissão feminina por excelência. E as mulheres passaram a ser vistas, não sem desconfianças e sob muitas condições definidas pela sociedade patriarcal, como construtoras da boa sociedade, numa espécie de extensão das atividades de cuidados das crianças que já vivenciavam no âmbito privado. A discussão em torno da feminização do magistério é, certamente, muito complexa, não nos cabendo aqui esgotá-la. Contudo, vale ressaltar que, em ampla medida, ela se baseia em um pensamento sexista que afirmava diferenças "naturais" entre homens e mulheres. Portanto, cabia às mulheres socializar as crianças, como parte de suas funções maternas. Não obstante, o ensino primário era entendido como extensão da formação moral e intelectual recebida em casa, a educação das crianças estaria melhor cuidada nas mãos de uma mulher, uma professora. Uma identidade construída de fora pautada na vocação “natural” das mulheres para o cuidado das crianças. Assim, as relações de discriminação com o sexo feminino permeiam, desde sua gênese até os dias atuais, o trabalho da mulher na docência. Associada ao sacerdócio, a ideia de vocação para o magistério, foi e é utilizada como mecanismo de legitimação do preconceito contra o sexo feminino e contra a docência dos anos iniciais, e como explicativo dos baixos salários da profissão e poucos investimentos na educação pública, especificamente. Ainda hoje essa premissa de trabalhar como professora, por amor, e se sujeitar a uma baixa remuneração, é compreendida como parte do perfil vocacional das mulheres, quando na realidade revelam muito mais sobre opressões de gênero e classe social. Obviamente esta identidade não foi assumida sem resistência pelas mulheres docentes que se organizaram em sindicatos, coletivos e, principalmente, a partir dos anos 80, ganharam as ruas construindo lutas em torno da defesa da escola pública e da estruturação e valorização do magistério. No decorrer de século XX, as exigências para atuação no ensino dos anos iniciais e educação Infantil (antigo primário e pré-primário) se modificaram bastante. Até 1971, exigia-se formação secundária em escolas normais - correspondente a uma formação profissional em nível fundamental -, a partir de 1971 exigia-se formação em 2º grau - correspondente ao atual ensino médio. Com o advento da Lei 9394/93 que instituiu a Nova Lei de Diretrizes e Bases, a formação requerida passou a ser de nível superior de Licenciatura Plena em Pedagogia[6]. As mudanças nas exigências legais de formação, contudo, não vieram acompanhadas de mudanças significativas de valorização profissional, e a despeito delas, a docência dos anos iniciais, eminentemente feminina e proletarizada, permanece socialmente desvalorizada, e alvo de ataques como o citado no início desse texto, mas não apenas esse, quem dera fosse. Segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2019, 79% da docência é exercida por mulheres. Observa-se também que, quanto mais elementar o nível da escolaridade de um grupo, maior a quantidade de professoras. Na Educação Infantil esse número sobe para 97%. Em contrapartida, a remuneração fica, em média, 30% abaixo de outras profissões. Aliando a histórica desvalorização profissional à ausência de políticas de formação docente que encare a dimensão científica deste trabalho, é fácil perceber como o professorado dos anos iniciais, enquanto uma profissão, majoritariamente, de mulher e de pobre, seja alvo de ataques de homens como aquele. Antes que eu esqueça, professores e professoras (sejam dos anos iniciais ou de qualquer outra etapa de ensino), pedagogos e pedagogas não são burros e burras, tampouco são culpados pela perpetuação do fracasso educacional brasileiro, embora alguns discursos pedagógicos, midiáticos, políticos - pautados conscientemente ou não em concepções neoliberais de escolarização, educação e fazer docente - insistam em querer nos fazer crer assim. A qualidade da educação passa por questões complexas como a nossa concepção de vida e sociedade, de educação e escolarização; pela superação de nosso modelo de oferta educacional historicamente dual; pela valorização e estruturação da carreira docente pautada em sua natureza didático-pedagógica, mas também científica de produção de saberes; por políticas públicas e financiamento educacional comprometidos com a efetivação da educação pública, gratuita e de qualidade… A lista poderia aqui se ampliar e pormenorizar, mas eu escolho pontuar apenas essas questões mais estruturais. Obviamente, esse pensamento é muito mais analítico e complexo, porém fundamental para abordar uma questão delicada como a educação brasileira. Mais fácil é atacar mulheres, mais fácil é atacar trabalhadoras. Eu, contudo, nascida mulher pobre, criada nas lutas, das quais freqüentemente me canso, mas ferozmente prossigo, não aceito discursos fáceis. Não me calo frente a agressão classista e machista, como essa e tantas outras vivenciadas cotidianamente na Educação Brasileira. Permito-me, contudo, a fala simples e urgente, pelas palavras do educador brasileiro atacado pela mediocridade olavista. Fala, Freire: “É urgente que engrossemos as fileiras da luta pela escola pública neste país. Escola pública e popular, eficaz, democrática e alegre com suas professoras e professores bem pagos, bem formados e permanentemente formando-se”. É vital não naturalizar ataques às professoras e aos professores! Referenciais: FREIRE, Paulo. Professora sim tia não: cartas a quem ousa ensinar. São Paulo: Olho D’água, 1993. LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação: uma perspectiva pós-estruturalista. Petropólis, RJ: vozes, 2003. 6ª ed. TANURI, Eleonor Maria. História da formação de professores. Universidade Estadual de São Paulo. Revista Brasileira de Educação, Mai/Jun/Jul/Ago 2000 Nº 14. Notas: [1] Graduada em Pedagogia pela UFRN. Psicopedagoga Institucional. Pedagoga do Instituto Federal de Educação Tecnológica do Ceara. [2] Atualmente não ocupo mais este espaço. Continuo Pedagoga, mas atuante na mediação técnico-pedagógica no IFCE. [3] Esta afirmação se faz necessária a uma profissão historicamente subalternizada e desprofissionalizada, mesmo quando comparada à docência de outros níveis e etapas da educação. Nada tem a ver com ausência de afetividade no processo pedagógico, mas parte da compreensão de que a linguagem é constitutiva de nossas relações e que a profissionalização do magistério passa pela dissociação entre a figura da professora da Tia (extensão da vida familiar que não requer práxis específicas). [4] A afirmação se pauta na observação da realidade próxima de um grupo de professoras conhecidas da rede pública e privada, não se pretende generalista, mas um dado inicial que precisa de mais estudos e análises. [5] As professoras precisavam ter formação específica nas chamadas Escolas Normais. Segundo DEMARTINI (1999) a escola normal passou a representar uma das poucas oportunidades, se não a única, das mulheres prosseguirem seus estudos além do primário. [6] O curso de Pedagogia surgiu em 1939, inicialmente criado na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil, mas visava a dupla função de formar bacharéis, para atuar como técnicos de educação, e licenciados, destinados à docência nos cursos normais (formação de professoras e professores da Educação Básica). Imagem da capa: https://unoieducacao.com/2019/02/26/a-importancia-dos-contextos-significativos-na-educacao-infantil/

Respeita nossa História: Armanda Álvaro Alberto
Respeita nossa História: Armanda Álvaro Alberto

Isabelle C. S. Pires* As mulheres presas Entre as mulheres denunciadas ao Tribunal de Segurança, algumas vão defender-se, outras recusam defesa. [...] A Sra. Armanda Álvaro Alberto, uma das directoras da União Feminina, que tinha ligações com a Aliança Libertadora, declarou que quer defender-se, tendo escolhido para seu advogado o Sr. Ed. Miranda Jordão. Esta causídico apresentou ao juiz a defesa prévia e o rol das testemunhas, tendo sido, também, devolvida a folha de qualificação. (Jornal do Brasil. 24/02/1937 p. 7). Em julho de 1937, foram julgados/as os/as suspeitos/as de serem os/as responsáveis pelo movimento conhecido como Intentona Comunista de novembro de 1935. Na relação de réus sentenciados, encontramos os nomes das seguintes mulheres: Valentina Leite Barbosa Bastos, Eneida Costa de Morais, Armanda Álvaro Alberto e Maria Morais Werneck de Castro (Jornal do Brasil. 14/07/1937. p. 39). Dentre as acusadas de envolvimento nesse levante comunista, destaco, neste verbete, a figura de Armanda Álvaro Alberto, que mesmo presa desde 1935, não deixou de se dedicar à educação popular, corrigindo na prisão os cadernos com exercícios de seus/suas alunos/as da Escola Regional de Meriti (MIGNOT, 2010. p. 11). Armanda Álvaro Alberto (1892 – 1974), figura que se destacou no cenário da educação brasileira a partir da década de 1920, foi uma renomada educadora com experiência pedagógica inovadora, defensora da participação da família no ambiente escolar e de uma educação praticada ao ar livre. Teve forte atuação também como defensora da leitura, atuando na construção de bibliotecas populares e infantis e no desenvolvimento de uma política editorial de livros dedicados às crianças. Foi ainda uma altiva militante no movimento feminista, tendo fundado a União Feminina do Brasil. Nascida no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1882, Armanda era filha de Maria Teixeira da Motta e Silva e Álvaro Alberto Silva. Seu pai era médico com foco nas questões sanitárias e na política da zona rural do Rio de Janeiro, em um contexto de intensas reformas urbanas na cidade. A formação de Armanda se deu no espaço doméstico, sendo ministrada por sua mãe e por professores particulares, só tendo frequentado regularmente uma escola quando tinha 14 anos, ao ingressar no Colégio Jacobina, para participar de um curso de literatura inglesa. Nessa mesma escola, Armanda iniciou suas atividades no magistério, alguns anos depois. Juntamente à educação formal a que teve acesso, ela também foi influenciada pelas discussões políticas e pelas preocupações científicas suscitadas no ambiente em que cresceu (MIGNOT, 2010, pp. 22-23). Sua atuação como educadora se dava a partir de sua articulação com iniciativas educacionais que ocorriam no Brasil e pelo mundo afora. Em 1915, participara da Liga Contra o Analfabetismo, no Clube Militar, que proporcionara uma série de discussões e propostas sobre a educação brasileira. Ajudou a fundar e atuou ainda na Associação Brasileira de Educação (ABE), criada em 1924, entidade esta que proporcionou debates com educadores de outros países, convidando-os para palestrar e para trocar proposições sobre o tema. Em 1919, acompanhando seu irmão que foi morar em Angra dos Reis, por servir à Marinha, Armanda fundou uma escola ao ar livre para os filhos de pescadores da região. Dando continuidade ao seu projeto de educação popular, em 1921, Armanda inaugurou a Escola Proletária de Merity, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense do Rio de Janeiro. Na época de sua fundação, a região era uma zona rural constituída unicamente pelo município de Iguaçu. O desmembramento ocorreu baseado na estação ferroviária de Meriti, em que no lado leste foi criado o distrito de Duque de Caxias, em 1931, e que em 1943 se tornou município (BELOCH apud MIGNOT, 1993, p. 625). A Escola Proletária de Merity, apelidada de “mate com angu” por oferecer merenda aos/às alunos/as, propunha-se a ser um ambiente de pedagogia prática, no qual o interesse partia da criança, subvertendo a prática pedagógica focada na atuação do professor, e não se restringia às paredes da sala de aula, sendo suas atividades exercidas ao ar livre e em contato com a natureza. A escola tinha como base fundamental educar crianças do povo e prepará-las para viver e agir em seu meio e em seu tempo (MIGNOT, 1993, p. 621/623). Em 1923, a escola teve seu nome alterado para Escola Regional de Meriti, reforçando seu propósito de integração com a localidade. À Armanda interessava que sua escola fosse muito além de um espaço de educação curricular, era sua preocupação também desenvolver atividades que envolvessem a comunidade e proporcionassem a integração das famílias à escola. Nesse sentido, organizou campanhas de saneamento na região através do Círculo de Mães, criado em 1925. Em 1928, Armanda casou-se com Edgar Süssekind de Mendonça, mas não adotou o sobrenome do marido em sua vida pública. De seu casamento teve um único filho, Álvaro Alberto de Motta e Silva, que veio a se tornar um renomado cientista brasileiro. Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciência e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e consagrou-se por seus estudos pioneiros no campo da energia nuclear, impactando a política nacional nesta área (MIGNOT, 2010. p. 23). Ao lado de outras mulheres preocupadas em lutar contra as discriminações de gênero que se expressavam na legislação e defender os interesses das mulheres brasileiras, Armanda criara, em 1935, em meio à efervescência política da época, a União Feminina do Brasil e fora a primeira presidente da entidade. Em virtude da filiação desta associação à Aliança Nacional Libertadora – entidade que agregava partidos políticos, sindicatos, agremiações estudantis e culturais – e da integração na Frente Única Antifascista, Getúlio Vargas determinou o fechamento da União Feminina no mesmo ano em que fora fundada e, por conta da aproximação com a Frente, que fora acusada de “preparar terreno e ambiente para o advento da Revolução Comunista” Armanda fora presa por envolvimento na Intentona Comunista de 1935. Em julho de 1937, foram julgados/as os/as indiciados/as neste caso. Armanda foi uma dos 35 absolvidos nesse julgamento, que condenou 26 corréus do processo. Nesse contexto, a Escola Regional de Meriti representou uma forma de continuar influenciando o mundo, mas no âmbito local. Armanda despediu-se de sua escola, em 1964, quando a transferiu para o Instituto Central do Povo, após tentativa não exitosa de repassá-la para o governo do Estado. Com a transferência, a escola sofreu mais uma mudança de nome por solicitação da educadora, passando a se chamar Escola Dr. Álvaro Alberto, em homenagem a seu pai. Armanda Álvaro Alberto faleceu em 5 de fevereiro de 1974 na cidade do Rio de Janeiro. * Doutoranda em História Social pelo PPGHIS/UFRJ. Bolsista CAPES. Mestre em História, Política e Bens Culturais pelo CPDOC/ FGV. Graduada em História pela UFRRJ. Referências do texto A educadora Armanda Álvaro Alberto. TV Brasil. 29/03/2011. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=M2F80cjvwfw Acesso em: 01/07/2020. MATOS, M Izilda S. Maria Prestes Maia: trajetória de vida e lutas. Revista Brasileira de pesquisa (auto)biográfica, v. 3, p. 187-202, 2018. MIGNOT, Ana Crystina Venancio. Armanda Álvaro Alberto. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana. 2010. ­­­__________. Decifrando o Recado do Nome: uma Escola em busca de sua Identidade Pedagógica. R. bras. Est. pedag., Brasília, v.74, n.l78, p.619-638, set./dez. 1993. No Tribunal de Segurança Nacional. Jornal do Brasil. 14/07/1937. p. 39. O processo crime dos acusados comunistas. Jornal do Brasil. 24/02/1937. p. 7. Referências da imagem Núcleo de Estudos Visuais em Periferias Urbanas (NuVISU) / D´ÂNGELO, Helô. Revolucionária da educação, Armanda Álvaro Alberto é tema de documentário biográfico. Revista Cult. 31 de mai. de 2017. Disponível em: https://revistacult.uol.com.br/home/revolucionaria-da-educacao-armanda-alvaro-alberto-e-tema-de-documentario-biografico/Acesso em: 08 de jul. de 2020.

Traduções: Leïla Slimani
Traduções: Leïla Slimani

A experiência do confinamento, do encerramento, da imobilidade faz parte da história das mulheres Leïla Slimani Em seu diário do confinamento, a romancista se questiona sobre o papel tradicional atribuído às mulheres “À primeira vista, as mulheres parecem confinadas. A sedentariedade é uma virtude feminina, um dever das mulheres ligadas à terra, à família, ao lar. Para Kant, a mulher é a casa. O direito doméstico assegura o triunfo da casa; ele enraíza e disciplina a mulher, abolindo todo desejo de fuga”. Em sua História das Mulheres (Editora Contexto, 2007)[1], Michelle Perrot fala da relação das mulheres com a mobilidade. A mulher, segundo ela, é um ser sedentário cuja existência é marcada pela espera. Penélope espera Ulisses como as jovens meninas virgens esperam um homem que venha lhes libertar e lhes permitir cumprir o seu destino. As mulheres estão “no lar”, elas devem estar “lá” para suas crianças. Elas são um ponto de ancoragem, uma referência imóvel, enquanto o homem é sempre atraído para fora. Os assuntos do mundo o chamam. O homem faz a política, ele faz a guerra, ele faz o mundo girar. O espaço público foi, por muito tempo, e ele ainda o é em muitos países, profundamente hostil à presença das mulheres. Porque se elas estão mantidas entre quatro paredes é também porque se desconfia delas. No interior, a mulher vive sob vigilância. A quantas meninas nós dizemos: “É a escola e a casa”? Nada é tão temível quanto a garota que sai, a garota das ruas, que erra sem objetivo e que coloca em perigo a sua virtude. Entre essas quatro paredes, a vida das mulheres é invisível, uma eterna repetição de tarefas cotidianas que nós nem vemos mais. Nutrir, cuidar, lavar roupas, ninar uma criança. Trancada em um espaço, a mulher também está em silêncio, pois sua palavra não está fadada a ser ouvida. Muitas vezes pensei que é por isso que desconfiamos tanto das mulheres que leem. A leitura é uma viagem imóvel, uma evasão temporária para fora de nossa prisão, uma errância onde nada pode nos deter. No Marrocos, em alguns terraços de cafés, nós só vemos homens. Um dia, eu me lembro de ter sentado em um deles, de ter acendido um cigarro e o patrão, muito gentilmente, me pediu para me instalar do lado de dentro. “Isso vai me criar problemas”, ele me disse. Agora que o Marrocos está confinado, digo a mim mesma que esses homens estão em casa e me pergunto se, medindo o que está sendo arrancado deles – a possibilidade de andar, de se sentar no café, de estabelecer uma conversa com um desconhecido -, eles pensam um pouco em suas irmãs, em suas mulheres, em todas aquelas que integraram a ideia de que nós estávamos indo da casa para o trabalho, do trabalho para o mercado, do mercado para casa. Ulysses no feminino Em muitos países do mundo, mesmo quando elas não são explicitamente impedidas de sair, tudo contribui para empurrar as mulheres para dentro. Um trajeto de ônibus? Um inferno. Sentar-se sozinha em um banco, no meio de um parque? Uma loucura. A experiência do confinamento, do encerramento, da imobilidade faz parte da história das mulheres. A liberdade de movimento foi e continua a ser uma luta para milhões de nós. Em seu livro Sonhos de transgressão: minha vida de menina num harém (Companhia das Letras, 1996)[2] a socióloga Fatima Mernissi conta sua infância em um harém de Fez nos anos 1940. “Errar livremente nas ruas era o sonho de todas as mulheres”, escreve aquela que passou sua infância a espiar a rua de cima do terraço ou através das persianas. É ali, ela diz, nesse confinamento, que ela sonha em ser escritora. “Vou me tornar mágica. Eu cortarei as palavras para compartilhar os sonhos com as outras pessoas e tornar as fronteiras inúteis”. Uma outra mulher vem à mente e é a feminista americana Gloria Steinem. Ela escolheu a vida de eterna nômade, de viajante sem fim, ela é uma espécie de Ulysses no feminino, mas uma Ulysses que não fantasiaria Ítaca, que não teria para onde voltar, somente lugares a descobrir. Para ela, nascida em 1934, o lar tradicional não era nada mais que uma armadilha, e a imagem da perfeita dona de casa americana era repulsiva. A ideia de uma casa bem arrumada, com cheiro de limpeza e de bolo saindo do forno só lhe inspirava desconfiança. É preciso ler sua autobiografia, Minha vida na estrada (Bertrand Brasil, 2017)[3] onde ela mostra como a viagem é política para uma mulher. A estrada incarna a liberdade, o desejo de mudança, a sede de encontrar o Outro. Ela é a recusa dos conservadorismos e das alienações. Quando minha avó, alsaciana, se mudou para o Marrocos no final dos anos 1940, ela descobriu esta ausência da diversidade no espaço público. Sua própria sogra vivia confinada em uma casa tradicional e sua cunhada saía às escondidas. Meu avô adorava ir ao café - entre homens, é claro - e ele nunca imaginou que sua mulher pudesse acompanhá-lo. No entanto, quando ela o via pronto para sair, minha avó tirava o avental, beliscava as bochechas e corria atrás do marido. "Eu vou também", ela dizia. E nada e ninguém poderia dissuadi-la. Leïla Slimani é escritora, nasceu em Rabat, no Marrocos. Acaba de lançar Le pays des autres (Gallimard, 368 páginas, 20 euros). Ela recebeu o prêmio Goncourt 2016 por seu romance Chanson Douce (Gallimard, 2016), publicado em português sob o título Canção de Ninar e editado em mais de 30 países . Texto originalmente publicado no periódico Le Monde em 29/03/2020. Tradução de Thaís Tanure. Foto: Lionel Bonaventura, AFP. [1] Em francês Mon histoire des femmes, Seuil, 2006. [2] No texto original, cita-se a edição francesa Rêve de femmes (Albin Michel, 1996). [3] Em francês Ma vie sur la route (Harper Collins, 2019). A publicação original em língua inglesa é de 2015 My life on the road (Penguim Random House).

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

Esta coluna tem por objetivo relatar casos em que nossas relações profissionais acadêmicas estão interconectadas com relações pessoais. Essas relações podem se dar entre colegas de graduação ou como relações de orientação, que não raras vezes, se transformam em relações afetivas. É sempre com alguma surpresa, porém, que nos damos conta do quanto essas questões que relegamos ao âmbito do pessoal interferem nas nossas identidades profissionais. E do quanto elas ocorrem com frequência. Suspeitamos que isso ocorre porque geralmente os valores atribuídos ao domínio da intimidade não são frequentemente associados à identidade profissional esperada dos historiadores e historiadoras: esses assuntos são supérfluos, rasos e dispensáveis. Para preservar a identidade dos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Acreditamos na importância da divulgação dessas situações, pois queremos que mais pessoas, ao verem esses relatos, tenham ferramentas para se darem conta de seus próprios relacionamentos. Foi assim que esta Alice e Beatriz se conheceram - ao se olharem no espelho, reconheceram-se a si e à outra a partir de suas experiências em comum. O “espelho”, presente no nome da coluna, veio do uso do espelho como tropo na historiografia. François Hartog já nos alertou para o exercício da construção do outro a partir da referência de si (O Espelho de Heródoto), mas gostaríamos de acrescentar a nuance da Bonnie Smith, quando ela lembra que esse espelho, quando no feminino, geralmente está associado à vaidade, à luxúria, à sensualidade (O Gênero e a História). Desse modo, queremos nos aproveitar de Bonnie Smith e François Hartog para colocarmo-nos a todos e todas no espelho tal como Beatriz e Alice. E esperamos que assim se dê com quem nos lê. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, nos envie um email para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Abaixo seguem nossas primeiras cartas. Esperamos que aproveitem! Alice e Beatriz. Beatriz, olá. Tudo em ordem por aí? Essa semana precisei entrar em contato com meu ex-companheiro para resolver umas coisas burocráticas. Não me fez bem. Me pergunto porque até hoje isso me incomoda. Será porque nunca disse a ele as coisas que hoje vejo que deveria ter dito? Que a ficha de que eu estava numa relação no mínimo torta caiu só depois da separação?Engraçado que eu, que sempre me achei a feminista consciente, não via coisas que hoje eu vejo. E acho que por isso ainda não me perdôo. De ter dado cartaz a um cara que não merecia... e enquanto eu fazia isso, só alimentava o ego e a vaidade da criatura. Ele debochava do tipo de música que eu ouvia, do tipo de roupa que eu comprava, da relação de capricho que eu tinha com meu cabelo. Numa conversa qualquer, o ouvi exaltar o fato de que a mãe tinha cuidado dos filhos absolutamente sozinha em casa. Retruquei que ele não conhecia em nada as redes que mulheres estabelecem nas tarefas do lar, no cuidado de crianças e o quanto isso era crucial para nossa sobrevivência, e que a mãe dele não devia era de ter passado por nada daquilo. Glorificar uma situação em que a mãe dele por certo sofreu como uma condenada e tomar isso como parâmetro para outras só indicava o quanto a percepção dele do papel de uma mulher numa relação era atravessada por uma falso endeusamento das mulheres, que lhes pede abnegação e sacrifício: a mãe era uma rainha porque sofreu por eles. Exatamente nos moldes da fala da Laura Dern em Histórias de um Casamento, sabe, quando ela diz: “Porque a base de nossa conversa judaico-cristã é Maria, a mãe de Jesus, que é perfeita. Ela é uma virgem que dá à luz, apoia incondicionalmente o filho e segura seu cadáver quando ele morre. O pai não aparece. Nem apareceu para a trepada. Deus está no céu. Deus é o pai e Deus não apareceu. Você tem que ser perfeita, mas Charlie pode ser um puto desastre. Você sempre será colocada no nível mais alto.” Ele podia ser declaradamente de esquerda, da academia, mas isso não o isentava de construir suas relações pessoais pelo machismo nosso de cada dia. Muitos casais se formaram nas salas de aula universitárias, em grupos de pesquisa, durante eventos, etc. Relacionar-se com alguém do mesmo ambiente onde você circula profissionalmente faz com que muitas experiências sejam compartilhadas e muitas carreiras construídas juntas. Faz até com que sejamos vistas mais como parte de um casal e menos pelas nossas próprias trajetórias (vide as tantas referências que se fazem em qualquer meio: “Fulana, esposa de beltrano.”), consequência de uma sociedade que define suas mulheres pelo seu status marital (Senhora, Senhorita). Isto para não falarmos daquelas que mesmo sem formação profissional, propiciamos o trabalho de nossos companheiros: em quantas aulas sobre Raízes do Brasil, lembramos de mencionar o trabalho de Maria Amélia Buarque de Holanda em organizar, compilar, datilografar, enfim, dividir o trabalho com Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo? Foram anos juntos, desde a graduação até o doutorado. Uma série de experiências compartilhadas: eventos juntos, angústias de seleções de mestrado, doutorado compartilhadas, ansiedades por aprovações de artigo... Uma identidade acadêmica que se fundia.... ao menos da minha parte. Quando terminamos, me perguntava: e agora, como vai ser quando for pra Congresso tal? E no entanto, uma colega do Paraná me disse que a gente encontra nosso caminho. E que ele é ainda melhor porque ele é só nosso (spoiler: foi exatamente o que aconteceu). Hoje eu me dou conta de que do lado de lá, bem... as prioridades eram outras. Ele colocava claramente a carreira dele acima da relação: me chamou de invejosa, me acusou de não o apoiar do doutorado (que eu deveria aturar as grosserias dele e que eu não preparava as refeições pra ele como gesto de carinho, veja só). Apesar de ser comum, é até uma surpresa quando criamos a coragem de compartilhar com alguma colega nossas experiências e constatar que outras delas também passaram pelas mesmas coisas que nós. Perceber o quanto a vaidade acadêmica também é uma vaidade masculina. E algo com que precisamos acertar contas: por que a gente se prestou a esse tipo de coisa? Admitir que eu alimentei o ego de uma criatura dessas fere quem eu sou e acho que é isso que ainda hoje, me faz ter raiva. E ainda mais desgosto por não ter insistido na época e na cara dele de que meu companheiro acadêmico, super engajado, era, veja só, machista. Beijos com saudades, Alice. Olá, querida Alice! Que bom poder escrever para ti. A gente passa tanto tempo imersas em nossos trabalhos solitários de historiadoras, que escrever para uma amiga - ainda que da mesma área - já me traz um suspiro em meio ao ritmo acelerado do universo acadêmico.Lendo as tuas primeiras palavras, acho um tanto engraçado como “problemas individuais” na verdade são coletivos, não é mesmo? Como você sabe, ainda estou cansada e as crianças já cresceram: a Ana está com 4 anos e o João completa 10 anos na semana que vem. Estou pensando seriamente que chegou a hora de fazer meu pós doutorado na França.. Há dias, venho pensando no projeto e preciso sentar para escrevê-lo em tempo para concorrer ao edital. Você sabe, né? Com dois filhos, acabei atrasando a trajetória acadêmica. Já o meu companheiro, passou um ano fora. Lembra que ele estava na Espanha? Pois é, o Felipe retornou há pouco tempo. Como ele já concluiu a sua formação pós doc, acho que finalmente chegou a minha vez. O problema é que venho encontrando muita dificuldade em escrever o projeto pois tenho que conciliar o processo de escrita com o cuidado com as crianças, manter a casa limpa e organizada, bem como preparar as refeições para quatro pessoas. Certo dia, quando cheguei a cogitar que finalmente sentaria a bunda na cadeira para botar o projeto no papel, meu companheiro me pediu para cuidar das crianças no turno da manhã, pois ele precisava submeter a última prestação de contas da pesquisa, mesmo faltando uma semana para o término do prazo para a submissão. O engraçado, Alice, é que os prazos “determinados” pelos nossos colegas historiadores são sempre urgentes e prioritários, enquanto os nossos sempre podem esperar. Eis aqui o ponto em comum. Para que eles avancem, me parece, você, eu e outras sempre podemos esperar. As nossas realizações profissionais devem ser pacientes... Lembrando desse relato, eu questiono: qual a diferença dos obstáculos existentes para a concretização da nossa carreira para a carreira dos companheiros historiadores? Será que se não houvesse os filhos, a casa, as quatro refeições, a minha produtividade seria maior? A gente ouve muito que, ao optar pela trajetória do magistério superior, o verdadeiro casamento que você faz é com a universidade e esse deve ser um casamento sem filhos físicos - porque filhos são mais um obstáculo para toda mulher que almeja seguir uma carreira acadêmica. Será que se tivesse uma divisão de tarefas domésticas e de cuidados com as crianças, isso possibilitaria um maior equilíbrio na carga das demandas familiares e igualaria os rendimentos de produção científica? É como você bem falou. Companheiros, historiadores, cientistas super engajados, mas, ainda assim, um machismo paira no ar... Bem, eu espero que consiga desenvolver o meu projeto ainda nesta semana. E quanto a você, desejo lê-la de novo! Com amor e saudades, Beatriz.

Tá Rolando...
Tá Rolando...

1. ARQUIVO NA PANDEMIA Para quem quer um arquivo de imagens e textos testemunhais ou ficcionais sobre a experiência de isolamento durante os meses de março, abril e maio de 2020, este é o  livro perfeito. Organizado por Andréa Casa Nova Maia e Vera Casa Nova, Arquivo Pandemia foi distribuído em 74 fascículos e oferecido gratuitamente pela Editora UFMG. Os links para download serão divulgados diariamente nas redes sociais da instituição a partir desta terça-feira, 14 de julho. Os fascículos reúnem textos, desenhos, fotografias, recortes, citações, poesias e imagens produzidos durante a pandemia. Uma pequena coletânea-coleção, um arquivo de memórias vividas na realidade ou na imaginação de artistas, literatos, historiadores, antropólogos, filósofos, sociólogos, psicólogos, geógrafos, comunicólogos. Um trabalho em andamento que, ao final das publicações dos fascículos, será transformado em um livro digital. Acompanhe a divulgação dos links nas redes sociais da Editora UFMG ou visite o site www.editoraufmg.com.br e pesquise por assunto “Pandemia. Apresentação disponível em https://bityli.com/Z3obF 2. FEMINISMOS EM DEBATE O Feminismos em debate é um projeto interinstitucional coordenado por três professoras de História e historiadoras: Aryana Costa (UERN), Lívia Barbosa (IFRN - Campus Pau dos Ferros) e Maiara Juliana Gonçalves (UFRN - Escola Agrícola de Jundiaí). O projeto tem por objetivo promover debates abertos ao público sobre produções feministas no intuito de conectar as discussões e as abordagens produzidas dentro das universidades ao mundo fora dos muros dessas instituições de ensinos superiores, bem como das escolas. A metodologia do projeto é promover aulas públicas interativas, em torno de uma produção intelectual feita por mulheres, que ocorrem mensalmente por meio da plataforma do google meet. O Feminismos em debate, por meio da sua rede social no Instagram, promove conteúdo feministas . Confira as atividades do projeto no Instagram: @feminismos.em.debate 3. HUMANAS - PESQUISADORAS EM REDE O HuMANAS é uma rede de pesquisadoras e de professoras que atuam na área da História e áreas afins das Humanidades. O grupo foi criado no contexto de isolamento social devido a pandemia do covid19, após uma reunião online de um grupo de pesquisadoras e professoras de História que dialogaram sobre os problemas de gênero, e das suas interseccionalidades, que incidem no universo acadêmico. Desse modo, com a denominação de “rede”, a formação do grupo tem finalidade reunir, acolher e construir alianças solidárias entre mulheres, além de visibilidade às produções de mulheres no campo das Humanidades. Confira a iniciativa nas redes sociais: site: www.humanasrede.com twitter: twitter.com/HuMANASRede facebook: HuMANAS - Pesquisadoras em Rede instagram: @humanasrede

Mãos livres
Mãos livres

#literatura #contos #poesia #desabafos CPF Por Ana Beatriz Nogueira* “And I was part of that pact of silence, in a way; it was a condition of the treaty that gave me my equality, that I would not invoke the primitivism of my mother, her innate superiority, that voodoo in the face of which the mechanism of equal rights breaks down” (Rachel Cusk, Aftermath) Quando meu avô morreu, descobrimos que minha avó não tinha CPF. CPF, este documento necessário a qualquer transação elementar. Sem o qual não se pode comprar um eletrodoméstico. Abrir uma conta no banco. Minha avó não o tinha. Porque tudo, tudo, era meu avô quem fazia. Todas as providências práticas da vida civil. Vovó, recém viúva, não sabia preencher um cheque – nunca havia assinado um. A ela era reservado o reino - igualmente prático, mas de uma maneira distinta - do doméstico. Onde sua assinatura estava nos temperos, nos carinhos. Não nos contratos. Não é que eu recorde o momento em que algum trâmite exigiu o CPF inexistente de minha avó. Eu era uma criança quando meu avô morreu. Lembro de entreouvir minha mãe comentar sobre a ausência do documento. Mamãe, com sua voz firme, sempre atrelada às necessidades da vida. Necessidades como, finalmente, providenciar um CPF para minha avó. O método favorito de minha mãe para navegar as tempestades emocionais é se ocupar das coisas práticas. A pragmática capitã autoproclamada de qualquer navio a adernar no oceano familiar. Talvez, mais que um mecanismo de defesa, se trate também de uma maneira inconsciente de se distanciar do modelo de sua mãe, uma mulher que não tinha sequer um CPF. (Referência da imagem: https://www.sympla.com.br/resgate-e-cura-da-ancestralidade---bairro-tatuape-sp-florescer-bento__408429#info) Minha memória do CPF ausente, símbolo eloquente do papel social reservado à minha avó, não é de percebê-la como dependente - eu, criança, não era capaz de me sentir chocada por uma mulher adulta não ter um CPF. Tenho a memória do estupor de minha mãe ao relatar o fato. E de ter percebido, pelo tom de voz de mamãe, que ser uma mulher sem CPF era um estado indesejável. Guardo uma memória auditiva, vagamente misturada com a lembrança visual da mesa de jantar do apartamento de minha avó. O marrom da madeira. O frio dos braços de metal da cadeira. Um sentimento opressivo meio difuso - como se o ar estivesse abafado dentro daquela casa em luto. E as conversas dos adultos sobre a falta do CPF. Tenho a memória de outros momentos em que minha mãe repetiu a história do CPF. Dessa feita, já em tom educativo, de forma a incutir em mim e em minha irmã a necessidade de virmos a ser mulheres que não dependeríamos da boa vontade de nossos maridos para retirar um CPF. (Contraditoriamente, nessas mesmas conversas em que se insistia na independência simbolizada pelo CPF, a presença futura de um marido aparecia tratada como uma certeza, não como uma possibilidade.) Outras vezes, a história era recontada em uma chave diferente, onde ficava claro o anseio da narradora por ressignificar a narrativa. Era patente o esforço de mamãe, mulher independente, em reconciliar a figura do homem que achava que a esposa não precisava ter CPF com o pai amoroso e dedicado que minha mãe amara. “Papai morreu tão jovem por causa do muito que trabalhava”, minha mãe dizia; “cansei de vê-lo sair do quarto de manhã cedo, na ponta dos pés, para não acordar sua avó.” E completava: “sua vó teve uma vida boa, sem  preocupações. Foi sempre poupada.” O que é verdade. Mas igualmente é verdade que um pedestal também é um espaço confinado, como diz uma famosa feminista. E minha mãe sabe disso. Tanto que forjou outro destino para si. Mamãe me ensinou muitas coisas. Algumas involuntariamente. Uma delas, que o orgulho de ter um CPF se mistura a uma nostalgia por ser cuidada. Outra, que muito desculpamos às figuras masculinas. ________________________ Minha avó sempre foi uma mulher inteligente. Lia muito, gostava de cinema. Era “professora formada” – o máximo de ambição intelectual socialmente permitida às mulheres de sua geração. Aos 95 anos, seu vocabulário de leitora voraz faz com que siga imbatível no jogo de palavras cruzadas. Nenhuma das netas é páreo para ela. Dizem ter sido também uma mulher bonita. Nas fotos antigas, vejo um sorriso meigo e um olhar confiante, em um rosto que, para os estreitos padrões estéticos de hoje, seria considerado um tanto bochechudo. A pele alvíssima empresta a estas fotografias uma dimensão quase tátil. ________________________ Nossa memória é formada pelo que se viu e pelo que se viveu. Mas também pela mitologia familiar. Pelas histórias que nos foram contadas e que, de alguma forma, se incorporam ao tecido de nossa vida, à narrativa de nossa família, de nossos ancestrais. Outra das histórias que lembro sobre minha avó também tem minha mãe como narradora. Mamãe contava que vovó atravessou uma menopausa terrível, com mudanças de humor repentinas e abrumadoras, uma ferocidade bastante assustadora para toda a família, acostumada ao temperamento cordato de minha avó. Mamãe creditava esse furacão hormonal, com certo orgulho, ao fato de vovó ter sido a primeira usuária de anticoncepcionais de que tinha notícia. Meu avô trabalhava com importações e exportações e, tão logo surgiu a pílula, antes de tal medicamento estar disponível no Brasil, minha avó o convenceu a trazê-la para ela do exterior. O desejo, inarticulado, de ditar as regras do seu corpo, mesmo sem ter sequer um CPF. _________________________ Uma vez, não sei se por ocasião de alguma mudança ou de simples arrumação da casa, tive acesso a uma caixa de recordações de minha avó. Fotos antigas: dela, de familiares, de meus tios, do casal. Fotos amareladas, com dedicatórias escritas no verso em tinta preta. Cartões postais, lembranças de um tempo em que toda viagem era um acontecimento. Cartas. Pequenos objetos. E, no meio desses pequenos objetos, um caderninho de capa preta. Neste caderninho, com a caligrafia floreada das avós, anotações sobre cinema. Nomes de filmes, ano, diretor, atores principais, e algumas impressões depois de cada título. - Vó, o que é esse caderninho? É sua letra, não é? - Ah, bobagem, Aninha. São umas coisinhas que eu anotava sobre os filmes que via. Eu e seu avô íamos ao cinema toda semana, sabia? A maioria dos filmes do caderno da Vovó são hoje considerados clássicos das décadas de 40 e 50. Eram bastante interessantes os comentários, apesar de claramente amadores. Bons resumos das tramas, textos bem escritos, comentários divertidos sobre atores e atrizes. Com um mínimo de treinamento e edição, seria fácil ter convertido este material em crítica de cinema para alguma revista da época. Nem sei se esse caderninho ainda existe. O desinteresse típico dos jovens para com tudo que diz respeito à memória fez com que não o tenha guardado. __________________________ Hoje eu me pergunto quem era essa mulher. A mulher de verdade, escondida por trás da minha avó que fazia milanesas inesquecíveis. Quem era essa mulher que não se rebelava por pelo direito a ter um CPF, mas que sabia fazer crítica de cinema? Essa mulher que intuitivamente entendia que ter dez filhos era uma opressão a ser evitada. Essa mulher de quem era cobrada uma cordialidade implacável, que resistisse impávida às intempéries da idade, às flutuações hormonais e aos sonhos sufocados, a fim de não alarmar a família. Quem essa mulher poderia ter sido? ___________________________ Um dia cheguei na casa de meus avós e encontrei vovó em meio a um pranto desconsolado. Meus avós, então, moravam em uma casa linda, com um jardim na frente, uma escadinha pela qual se entrava na sala espaçosa, de cores claras e pé-direito altíssimo – uma arquitetura utilitária, pensada para minimizar o calor do Nordeste em tempos pré-refrigeração, mas de grande efeito estético. Vovó estava sentada na varanda e chorava como se tivesse perdido um ente querido. E, de fato, perdera: a TV acabara de exibir uma reportagem em homenagem ao aniversário de morte de Tyrone Powell, o ator. Foi um choque ver vovó chorando. Lembro de perguntar quem era o tal “Tairone” que vovó pranteava. Que mundos imaginários minha avó deve ter habitado, em paralelo à sua vida real – à vida em que não lhe era conferido o direito de ter um CPF? Será que nesse mundo imaginário Tyrone seria um marido alternativo – ou mesmo um amante, será que minha avó se permitia sonhar com um amante? Que fantasias essa mulher habitou, que vida mental desenvolveu para se compensar por esse destino estreito de mulher, por esse roteiro repetido e já traçado de antemão? _________ A avó que eu conheci era uma mulher doce, sempre alegre, que me levava pela mão para comprar revistas em quadrinhos na banca da esquina, que costurava vestidos para minhas bonecas, que cozinhava refeições cujos sabores ainda posso evocar. Parecia feliz, inofensiva e sem maiores complexidades. Que profundezas ela escondia? Quem era a mulher cujos paliativos à sua vida de pequenas alegrias domésticas pareciam reais a ponto de fazê-la chorar? Será que esta estranha, esta pioneira da contracepção, que conheci brevemente no dia do aniversário de morte de Tyrone e cujas anotações encontrei, ainda existe dentro da senhora de 95 anos, sempre bem penteada e bem vestida, ainda lúcida e bem informada, campeã de scrabble? Será que é justo querer saber dessa mulher alternativa? Do que minha avó poderia ter sido se mais lhe houvesse sido permitido, se o ambiente social fosse menos sufocante? Será um exercício de curiosidade? De resgate? De revalorização de um potencial suprimido, sufocado? Ou será uma involuntária crueldade? Será meu interesse na mulher alternativa uma recusa dogmática, em que eu, empunhando a bandeira do meu feminismo, reluto em reconhecer o valor de cada história? Uma recusa em reconhecer a bravura necessária para encontrar a felicidade possível, mesmo em circunstâncias injustas, reduzidas? --------------- Não há respostas fáceis. *Ana Nogueira é mulher, feminista, nordestina, neta da Dona Anália e autora de “Cartas de Beirute – Reflexões de uma mãe e feminista sobre autismo, identidade e os desafios da inclusão” O meu amor é proibido! Langela Monteiro* O meu amor é proibido Eu não posso gritar a minha líbido Tem que ser escondido! O meu amor é proibido Eu não posso dizer que é ela O amor da minha vida O meu amor é proibido Então eu sigo o padrão Vivendo um eterno orgasmo fingido Langela Monteiro - Parnaíba (PI) * Langela Monteiro é mulher piauiense, apaixonada por livros, feminista e aspirante a poetisa. Acredito que a educação muda o mundo, por isso acadêmica de licenciatura em História pela Universidade Estadual do Piauí. Para dizer Cláudia Nascimento* Para lançar conotações Não desejo só estar em salas quase abertas Com luzes mornas Escondida nos cantinhos de algum lugar Para simbolizar Prefiro ouvir musica acesa Ou a plenitude do silêncio Envolvendo-me os castanhos olhos Aguçando-me os sonhos e memórias Na hora pensada, mover-me como borboletas Por entre caminhos desenhados Com minhas próprias cansadas mãos Trilho o que ainda me aquece Afinando-me com perfumadas folhas Só quero dizer sem amarras Não busco celebrações dos meus feitos Nem perfumo ninguém para trocar pelos meus versos Meus poemas não nascerão enclausurados Meus ventos são cantados no Tempo Recitados em qualquer lua Sentidos por quem desejá-los Se amansá-los ou guardá-los em potes Estrelamente retornarão ao sagrado Ao libertário repouso Ao imprevisível mar Ao Si-poético Cláudia Nascimento 10-06-2020 * Cláudia Nascimento é formada em Letras- UERJ, Especialização em Literatura Brasileira -UFF, Especialização UFF, Leitura e Produção de Textos- UFF. Graduanda em Produção Cultural - UFF. Professora da  Rede Estadual de Educação do Rio de Janeiro.Professora e Escritora. Uma das vencedoras do Prêmio Paulo Freire de Educação(ALERJ)  em 2019.

Entrevista com a Elza Soares
Entrevista com a Elza Soares

(Foto de Stephane Munnier, disponível em: https://www.uai.com.br/app/noticia/musica/2015/10/13/noticias-musica,172888/elza-soares-transforma-dor-em-canto-em-seu-primeiro-album-de-ineditas.shtml) Nessa primeira edição, divulgamos a entrevista feita com a artista Elza Soares. O “Mulheres do fim do mundo” dá nome ao nosso site e faz parte de um total de 105 lançamentos feitos pela Elza Soares, contabilizando discos e compactos. Além disso são 9 singles e cerca de 180 participações especiais em projetos de outros artistas. Elza Soares é inspiração para muitas mulheres. O álbum conta a história da própria cantora que passou por dores, perdas, episódios de violências domésticas e de racismo e que, hoje, pode cantar a sua própria voz. Mulheres do fim do mundo são aquelas que, em contextos de pandemônio, dançam em meios aos destroços e continuam em pé, cantando até o último momento. Confiram a nossa entrevista! Revista MFM: Elza, em primeiro lugar, agradecemos muito sua disponibilidade para essa entrevista. Estamos nos dedicando com enorme carinho ao projeto do site Mulheres do fim do mundo e será maravilhoso inaugurá-lo com as palavras de quem nos inspirou. Pensamos em algumas perguntas relacionando sua biografia, carreira e atuação pública com o contexto atual do Brasil. Revista MFM: Em entrevista ao Estadão, em 2018, você disse que encontrou seu propósito musical: “Foi quando percebi o que eu deveria fazer. Entendi que esse seria o caminho. Mudou tudo. Encontrei uma brecha para dizer aquilo que eu sentia". Em mais de 60 anos de carreira, com uma coleção de prêmios, foi com o lançamento do Mulher do Fim do Mundo e também do álbum Deus É Mulher que você afirmou poder dizer o que sente. Gostaria que você falasse um pouco sobre como você enxerga essa mudança, a possibilidade de finalmente se expressar? O que ocasionou isso? Quando você, Elza Soares, consegue se expressar, consegue dizer o que você sente, consegue falar de temas "proibidos", você dá voz a uma multidão de mulheres que são diariamente silenciadas pelo machismo e misoginia que permeia nossa sociedade de modo estrutural. Como você vê os veículos que dão voz às mulheres nos dias de hoje? Elza Soares: acho que o encontro comigo mesma, entendeu? Eu vi, me vi livre de seus grilhões...me vi livre sem a mordaça... me vi livre. Iguais a liberdade! E também o que sou. Revista MFM: O nome “Elza Soares” se transformou em um símbolo de luta e resistência para as mulheres brasileiras, sobretudo nos núcleos do feminismo negro. Nos últimos anos, sua trajetória tem se conectado a de muitas mulheres das periferias do Brasil que entraram nas universidades, fizeram pós-graduação e lutam por melhores colocações no mercado de trabalho. Como inspiração para elas, a sua vida profissional está em ótima fase. Em 2016 o álbum “Mulher do Fim do Mundo” esteve entre os dez melhores do ano pelo New York Times, em 2017 seu show no Central Park teve grande sucesso, em 2018 fez apresentações em museus como o CCBB e o Museu de Arte do Rio, em 2019 recebeu o título de Doutora Honoris Causa pela UFRGS em uma cerimônia emocionante e, nesse mesmo ano, o musical “Elza” foi muito elogiado, tendo também recebido prêmios. Como você interpreta seu reconhecimento nesses espaços tradicionalmente elitistas e com forte recorte racial? Seria possível fazer um balanço de avanços e retrocessos sobre a questão da mulher em meio ao crescimento do conservadorismo no cenário político atual? Elza Soares: É tão difícil responder porque a gente fica em uma encruzilhada sem saber o que dizer, né? Crescemos tão pouquinho, tão pouquinho, quase nada. E esse quase nada é tão grande. Pra quem não tinha nada, foi um avanço muito grande, né? Então eu vejo assim, dando passadas curtas e prolongadas. Mediação da Vanessa* (*assistente da Elza): Como você interpreta seu reconhecimento nesse espaço tradicionalmente elitistas e com tão forte no recorte social? Como você interpreta isso? Elza Soares: Eu não sei Vanessa, é difícil! Vanessa: Você chegou a sentir todo esse recorte racial? Elza Soares: Lógico! Estou viva, né? Emocionalmente falando mais viva que nunca. Lógico! Vanessa: Mas mostrou quem era Elza! Elza: Mostrei quem era Elza, né? Tive que mostrar, com toda a ferida aberta, mostrando quem era Elza. Revista MFM: Elza, sua biografia, seu trabalho e sua atuação pública têm se tornado uma referência muito forte para milhares de brasileiras, que também passaram (ou passam) por privações alimentares, pobreza, além de vivências cotidianas de machismo, violência e racismo. Um episódio notável de sua trajetória artística é o momento em que você diz para Ary Barroso, em sua primeira apresentação como cantora, que vem do “planeta fome”. No ano passado, você lançou o álbum “Planeta Fome”, com músicas que, em seu conjunto, contam a história de um Brasil desigual, mas resistente. Como diz uma das canções, “são histórias que a história qualquer dia contará”. Pesquisas mostram que, desde 2014, os índices de desigualdade de renda no país aumentam sem parar. Em 2017 e 2018, os relatórios de segurança alimentar da ONU e ‘Luz da Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável’, mostraram que, em função do congelamento de investimentos sociais por 20 anos, aumento do desemprego e cortes no Bolsa Família, o Brasil pode vir a ser reinserido no mapa do fome. A construção de seu último álbum, para além de ser um balanço de sua própria trajetória, também foi motivada pela situação que vivemos agora no país? Como você vê, ou quais sentimentos te despertam essa nova onda de empobrecimento no país (que, como sabemos, recai com mais força sobre mulheres negras?) Elza Soares: Como me assusta! Um país que tudo que se planta dá, até o que não presta. Mediação da Vanessa: Como você vê ou quais sentimentos te despertam essa nova onda de empobrecimento do país? Elza Soares: Como assim... graças a Deus tem os negros o que sabem plantar, que sabem acolher. Graças a Deus estamos vivos, gente! Vivos! Estamos vivos, graças a Deus! As mãos ainda plantam, as mãos ainda colhem. Revista MFM: Durante o período da Ditadura militar no Brasil, devido às ameaças que recebeu, você e sua família se exilaram na Itália. A música e as variadas produções artísticas da época também sofreram uma dura censura. Em 2020, 56 anos depois do início do regime autoritário brasileiro, ainda nos deparamos com alguns grupos diminuindo negando os crimes de perseguições, torturas e assassinatos que ocorreram na Ditadura Militar, bem como pedindo uma intervenção militar. Como você se sente diante dessas atuais manifestações e declarações antidemocráticas? Elza Soares: Quem tem fé consegue. Eu tenho muita fé, sempre consegui tudo através da minha grande fé, que eu tenho. Acredito muito em Deus, acredito que a gente possa crescer mais ainda, entendeu? Com essa fé que a gente carrega, que é um poder grande, que é a fé, minha gente, fé, muita fé. Revista MFM: De acordo com a ONU mulheres, o contexto de emergência aumenta os riscos de violência contra mulheres e crianças, especialmente em razão do isolamento das mulheres e da sua permanência no lar em tempo integral junto ao seu agressor. Durante a pandemia Covid19, observamos um aumento considerável do número de casos de violências domésticas no Brasil, sobretudo contra mulheres negras. Se você pudesse deixar um recado para essas vítimas, o que você diria para elas nesse atual contexto? Elza Soares: Denunciem. Gritem muito, por favor. Gritar, gritar, gritar! Cantar, cantar, cantar! Porque muitos… tá aí, na frente de todo mundo. É só gritar. Pedir socorro. Não se calar. Por favor! Revista MFM: Elza, sua história é de muitas batalhas. Você passou pela fome, racismo e violência, numa trajetória única de resistência e coragem. Diante de tanta luta e experiência, o que você teria a dizer para as mulheres que hoje enfrentam a pandemia em meio aos mesmo desafios? Elza Soares: Acredite. Por favor, vai em frente! Vá à luta! Não desista! Sem desistência, acreditando sempre que é capaz. Revista MFM: Em novembro de 2015 você concedeu uma entrevista ao Cultura Livre (canal do YouTube) para falar sobre o lançamento do álbum Mulher do Fim do Mundo. Ao ser questionada sobre quem seria aquela mulher do fim do mundo, respondeu: "não sei que mulher é essa não… é uma mulher forte, uma mulher guerreira, uma mulher que luta, que busca, que bate, apanha.. enfim.. é uma mulher. (...) parece com uma pessoa que eu conheço... parece muito." A mulher do fim do mundo de hoje é a mesma de 2015? Quem é a mulher que você citou na entrevista, aquela que se parece com a pŕopria descrição que você deu? Levando em conta a pandemia da Covid-19, bem como nossa crise política, o que é o fim do mundo para você? E qual é o papel da mulher nele? Mediação da Vanessa: Quem é a mulher que você citou na entrevista? Aquela que se parece com a própria descrição que você deu? Elza Soares: É ela mesma, ela só muda um bocadinho…. Porque… 5 anos dá pra dar mais 5 passadas… Já dei cinco passadas, mas é ela mesma, ela não muda não, ela só cresce um bocadinho mais. É tudo isso aí… Um bela feijoada né… Mediação da Vanessa: Uma pizza, como se torna tudo no Brasil… Elza Soares: Continuar caminhando sem se deixar derrotar. Tudo isso vai passar, tudo passa, já vi tanta coisa passar… É mais uma que vai passar. Tenho fé. Acredito!

"La Gringa": Nalü
"La Gringa": Nalü

Tributo ao tempo em que eu estava certa sobre nossa existência Nalü* Quando eu era pequena e me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, minha resposta era: aposentada. Lembro que minha mãe sempre disse ser impossível, porque essa não é uma carreira. Meu pai não disse nada. Porque ele já estava morto. Seria muito estranho se eu tivesse uma lembrança dele dizendo algo sobre isso. Pra provar que essa seria minha verdadeira vocação, eu argumentava: "você é quem não sabe de nada! o meu avô é a-p-o-s-e-n-t-a-d-o!". Pronto, ganhava. Com o tempo percebi que precisaria de um plano melhor e mais estável pro futuro... por isso, aos 13 anos, decidi que seria milionária. Em minha cabeça eu seria capaz de fazer apenas duas coisas: nada & destruir a sociedade. Era uma pré-adolescência muito feliz e saudável, obrigada. Mas tudo mudou em uma noite, enquanto meus amigos fumavam maconha e Lucas disse: “vai, dá uma aí!”. Em 30 segundos já não concordava comigo mesma–– não precisaria de tanto dinheiro pra ser feliz. Basicamente eu só precisaria de alguns dinheiros e um jardim. E, se pensa que mudei de ideia, você está completamente certo. Afinal, não vim com a genética necessária pra apreciação da natureza. Estou convencida de que minha incapacidade de estar no mato tem uma explicação científica, a psicanálise ainda não deu conta. Como sustentar o tráfico nunca foi uma opção, ao procurar pessoas que tenham essa mutação genética; vocação pra jardinagem e um jardim, ganhei mais uma habilidade: networking. Palavra chique que dei à minha tagarelice – que me trouxe até Nova York. Ao longo de minha ainda-breve-vida, arte foi a única coisa constante. Sabe aquela criança engraçadinha (e talvez chata) que desenha você como um dinossauro de três olhos, e depois faz um TED talk sobre? Eu! Lembro de amar observar os adultos e imitar tudo que via: as atrizes, minha vó, os porteiros... e agarrava meus irmãos pelos cabelos pra torná-los meus fantoches. Me pergunto se minha vida não é uma grande imitação. Encontro conforto quando penso, logo depois, que talvez todas (as vidas) sejam. Atuar, cantar, tocar violão e principalmente escrever, não pareciam um plano para mim. Pensei que esses eram parte da minha história e de quem eu era. É difícil entender que um hobbie pode também ser profissão. Que é possível fazer de uma facilidade, maestria. Principalmente porque essa é uma propaganda capitalista ridícula. Eu, classe mérdia bonitinha e defensora dos frascos e comprimidos, não me lembro ao certo o momento em que decidi aceitar que, ser artista era a única coisa que eu poderia fazer. Mas, lembro perfeitamente de todas as pessoas que tentaram me convencer a dar importância ao antigo plano A: aposentadoria. Optando pela profissão-artista, eu também estava desistindo do plano B: receber um salário. De quebra, pro desespero de alguns (de ninguém) (pois a essa altura já me apoiavam) (mas preciso desse ensaio dramático) decidi imigrar. Por que não? Como se não fosse suficientemente difícil sobreviver em minha própria língua e cultura. Fui. E por muito tempo, em Nova York, só pude pôr em prática o plano C: fumar maconha. Fiz de tudo, menos o plano D: viver como artista. Felizmente, percebi nos primeiros meses que continuaria artista, independentemente de como minha vida fosse. Os metrôs por aqui são a prova viva disso. Tive que abraçar minha eu do passado: é, realmente, uma parte indispensável de mim e de minha história. Por fim, não tenho planos. Pra minha sorte, hoje em dia posso explicar essa decisão citando o ganhador do Oscar, Parasite. Assumo que ainda tenho muitos planos; pois pra mim esse papo de viver o presente além de egoísta, é classista; mas estão em pausa. Saiba você que, por hora, o plano C se tornou um estilo de vida; tudo isso por causa da... pandemia. Pois é, eu sei que você pensou que estava finalmente lendo uma crônica de 2020 que não mencionou a quarentena. A verdade é que só escrevo isso pra dizer que o mundo inteiro está fazendo exatamente o que pensei que meu futuro poderia ser. Aprendemos, todos os dias, a fazer absolutamente nada. Enquanto a sociedade está sendo destruída por nós-mundo, só o que queremos é ficar chapado. De repente, todo mundo vive um frenesi coletivo e pensa que pode viver a vida como artista. Somos todos imitação e repetição e dinossauros de três olhos. Eu estava certa esse tempo todo. *Nalü é uma artista multidisciplinar. Escritora, atriz, humorista e ativista. Carioca, reside em Nova Iorque desde 2016. É a autora de “você (e todas as outras coisas que me machucam também)” best seller de poesia LGBTQIA+ na amazon em Abril 2019, disponível em inglês como “yoü (and all the other stuff hurting me too) publicado pela editora estadunidense Wide Eyes Publishing. Atualmente é cronista na plataforma global EmpowHer NY. Além de ser uma personalidade da internet, trabalha na produção de eventos político-culturais; encontros; workshops e debates junto ao coletivo Mulheres da Resistência no Exterior. É uma das idealizadoras da Feira do Livro da Língua Portuguesa em Manhattan, “Mulheres na Escrita,” a primeira Feira do Livro feminista do mundo. Assina seu nome (e algumas palavras) com dois pontinhos ü, para criar e espalhar uma carinha sorridente. Acesse: https://nalu.blog/who-am-i-quem-sou-eu/ [Referências da imagem da coluna "Na gringa": Ketllyn Fernandes, título da arte "Mapa Mundi aquarela". Disponível em: https://www.urbanarts.com.br/prints/ketllyn-fernandes?O=OrderByScoreDESC]