Cartas ao Espelho

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

Esta coluna tem por objetivo relatar casos em que nossas relações profissionais acadêmicas estão interconectadas com relações pessoais. Essas relações podem se dar entre colegas de graduação ou como relações de orientação, que não raras vezes, se transformam em relações afetivas. É sempre com alguma surpresa, porém, que nos damos conta do quanto essas questões que relegamos ao âmbito do pessoal interferem nas nossas identidades profissionais. E do quanto elas ocorrem com frequência. Suspeitamos que isso ocorre porque geralmente os valores atribuídos ao domínio da intimidade não são frequentemente associados à identidade profissional esperada dos historiadores e historiadoras: esses assuntos são supérfluos, rasos e dispensáveis. Para preservar a identidade dos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Acreditamos na importância da divulgação dessas situações, pois queremos que mais pessoas, ao verem esses relatos, tenham ferramentas para se darem conta de seus próprios relacionamentos. Foi assim que esta Alice e Beatriz se conheceram - ao se olharem no espelho, reconheceram-se a si e à outra a partir de suas experiências em comum. O “espelho”, presente no nome da coluna, veio do uso do espelho como tropo na historiografia. François Hartog já nos alertou para o exercício da construção do outro a partir da referência de si (O Espelho de Heródoto), mas gostaríamos de acrescentar a nuance da Bonnie Smith, quando ela lembra que esse espelho, quando no feminino, geralmente está associado à vaidade, à luxúria, à sensualidade (O Gênero e a História). Desse modo, queremos nos aproveitar de Bonnie Smith e François Hartog para colocarmo-nos a todos e todas no espelho tal como Beatriz e Alice. E esperamos que assim se dê com quem nos lê. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, nos envie um email para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Abaixo seguem nossas primeiras cartas. Esperamos que aproveitem! Alice e Beatriz. Beatriz, olá. Tudo em ordem por aí? Essa semana precisei entrar em contato com meu ex-companheiro para resolver umas coisas burocráticas. Não me fez bem. Me pergunto porque até hoje isso me incomoda. Será porque nunca disse a ele as coisas que hoje vejo que deveria ter dito? Que a ficha de que eu estava numa relação no mínimo torta caiu só depois da separação?Engraçado que eu, que sempre me achei a feminista consciente, não via coisas que hoje eu vejo. E acho que por isso ainda não me perdôo. De ter dado cartaz a um cara que não merecia... e enquanto eu fazia isso, só alimentava o ego e a vaidade da criatura. Ele debochava do tipo de música que eu ouvia, do tipo de roupa que eu comprava, da relação de capricho que eu tinha com meu cabelo. Numa conversa qualquer, o ouvi exaltar o fato de que a mãe tinha cuidado dos filhos absolutamente sozinha em casa. Retruquei que ele não conhecia em nada as redes que mulheres estabelecem nas tarefas do lar, no cuidado de crianças e o quanto isso era crucial para nossa sobrevivência, e que a mãe dele não devia era de ter passado por nada daquilo. Glorificar uma situação em que a mãe dele por certo sofreu como uma condenada e tomar isso como parâmetro para outras só indicava o quanto a percepção dele do papel de uma mulher numa relação era atravessada por uma falso endeusamento das mulheres, que lhes pede abnegação e sacrifício: a mãe era uma rainha porque sofreu por eles. Exatamente nos moldes da fala da Laura Dern em Histórias de um Casamento, sabe, quando ela diz: “Porque a base de nossa conversa judaico-cristã é Maria, a mãe de Jesus, que é perfeita. Ela é uma virgem que dá à luz, apoia incondicionalmente o filho e segura seu cadáver quando ele morre. O pai não aparece. Nem apareceu para a trepada. Deus está no céu. Deus é o pai e Deus não apareceu. Você tem que ser perfeita, mas Charlie pode ser um puto desastre. Você sempre será colocada no nível mais alto.” Ele podia ser declaradamente de esquerda, da academia, mas isso não o isentava de construir suas relações pessoais pelo machismo nosso de cada dia. Muitos casais se formaram nas salas de aula universitárias, em grupos de pesquisa, durante eventos, etc. Relacionar-se com alguém do mesmo ambiente onde você circula profissionalmente faz com que muitas experiências sejam compartilhadas e muitas carreiras construídas juntas. Faz até com que sejamos vistas mais como parte de um casal e menos pelas nossas próprias trajetórias (vide as tantas referências que se fazem em qualquer meio: “Fulana, esposa de beltrano.”), consequência de uma sociedade que define suas mulheres pelo seu status marital (Senhora, Senhorita). Isto para não falarmos daquelas que mesmo sem formação profissional, propiciamos o trabalho de nossos companheiros: em quantas aulas sobre Raízes do Brasil, lembramos de mencionar o trabalho de Maria Amélia Buarque de Holanda em organizar, compilar, datilografar, enfim, dividir o trabalho com Sérgio Buarque de Holanda, por exemplo? Foram anos juntos, desde a graduação até o doutorado. Uma série de experiências compartilhadas: eventos juntos, angústias de seleções de mestrado, doutorado compartilhadas, ansiedades por aprovações de artigo... Uma identidade acadêmica que se fundia.... ao menos da minha parte. Quando terminamos, me perguntava: e agora, como vai ser quando for pra Congresso tal? E no entanto, uma colega do Paraná me disse que a gente encontra nosso caminho. E que ele é ainda melhor porque ele é só nosso (spoiler: foi exatamente o que aconteceu). Hoje eu me dou conta de que do lado de lá, bem... as prioridades eram outras. Ele colocava claramente a carreira dele acima da relação: me chamou de invejosa, me acusou de não o apoiar do doutorado (que eu deveria aturar as grosserias dele e que eu não preparava as refeições pra ele como gesto de carinho, veja só). Apesar de ser comum, é até uma surpresa quando criamos a coragem de compartilhar com alguma colega nossas experiências e constatar que outras delas também passaram pelas mesmas coisas que nós. Perceber o quanto a vaidade acadêmica também é uma vaidade masculina. E algo com que precisamos acertar contas: por que a gente se prestou a esse tipo de coisa? Admitir que eu alimentei o ego de uma criatura dessas fere quem eu sou e acho que é isso que ainda hoje, me faz ter raiva. E ainda mais desgosto por não ter insistido na época e na cara dele de que meu companheiro acadêmico, super engajado, era, veja só, machista. Beijos com saudades, Alice. Olá, querida Alice! Que bom poder escrever para ti. A gente passa tanto tempo imersas em nossos trabalhos solitários de historiadoras, que escrever para uma amiga - ainda que da mesma área - já me traz um suspiro em meio ao ritmo acelerado do universo acadêmico.Lendo as tuas primeiras palavras, acho um tanto engraçado como “problemas individuais” na verdade são coletivos, não é mesmo? Como você sabe, ainda estou cansada e as crianças já cresceram: a Ana está com 4 anos e o João completa 10 anos na semana que vem. Estou pensando seriamente que chegou a hora de fazer meu pós doutorado na França.. Há dias, venho pensando no projeto e preciso sentar para escrevê-lo em tempo para concorrer ao edital. Você sabe, né? Com dois filhos, acabei atrasando a trajetória acadêmica. Já o meu companheiro, passou um ano fora. Lembra que ele estava na Espanha? Pois é, o Felipe retornou há pouco tempo. Como ele já concluiu a sua formação pós doc, acho que finalmente chegou a minha vez. O problema é que venho encontrando muita dificuldade em escrever o projeto pois tenho que conciliar o processo de escrita com o cuidado com as crianças, manter a casa limpa e organizada, bem como preparar as refeições para quatro pessoas. Certo dia, quando cheguei a cogitar que finalmente sentaria a bunda na cadeira para botar o projeto no papel, meu companheiro me pediu para cuidar das crianças no turno da manhã, pois ele precisava submeter a última prestação de contas da pesquisa, mesmo faltando uma semana para o término do prazo para a submissão. O engraçado, Alice, é que os prazos “determinados” pelos nossos colegas historiadores são sempre urgentes e prioritários, enquanto os nossos sempre podem esperar. Eis aqui o ponto em comum. Para que eles avancem, me parece, você, eu e outras sempre podemos esperar. As nossas realizações profissionais devem ser pacientes... Lembrando desse relato, eu questiono: qual a diferença dos obstáculos existentes para a concretização da nossa carreira para a carreira dos companheiros historiadores? Será que se não houvesse os filhos, a casa, as quatro refeições, a minha produtividade seria maior? A gente ouve muito que, ao optar pela trajetória do magistério superior, o verdadeiro casamento que você faz é com a universidade e esse deve ser um casamento sem filhos físicos - porque filhos são mais um obstáculo para toda mulher que almeja seguir uma carreira acadêmica. Será que se tivesse uma divisão de tarefas domésticas e de cuidados com as crianças, isso possibilitaria um maior equilíbrio na carga das demandas familiares e igualaria os rendimentos de produção científica? É como você bem falou. Companheiros, historiadores, cientistas super engajados, mas, ainda assim, um machismo paira no ar... Bem, eu espero que consiga desenvolver o meu projeto ainda nesta semana. E quanto a você, desejo lê-la de novo! Com amor e saudades, Beatriz.

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

#alertagatilho #denúncia #abusos Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvida. Para preservar a identidade dos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, nos envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Olá querida Alice, Hoje te escrevo, consternada, para relatar um caso que aconteceu em nosso departamento na Universidade que envolveu um colega professor e renomado profissional da área e uma aluna. A gente ouve pelos corredores de casos de assédio entre professores e alunas, mas é aquela coisa, né? Boa parte das narrativas que chegam é muito no “anonimato”. Pior que sabemos que esse anonimato se justifica ora pelo medo de uma retaliação do docente, ora pelo sentimento que faz pensar “mesmo que eu denuncie, não vai dar em nada”. Pois bem, a história aconteceu com uma aluna que ingressou recentemente em nosso curso de História. Ela estava pagando a disciplina ministrada pelo professor em questão agora no segundo semestre. A aluna - vou chamá-la de Clio nessa correspondência - sempre sentava na cadeira da frente pois, desde o início, ela aguardava ansiosamente pelo momento que iria pagar essa disciplina. O aguardo ansioso não era apenas pela disciplina em si, mas pelo docente que a conduziria. Sabemos que as disciplinas ministradas por profissionais que muito se destacam no meio acadêmico acabam sempre tendo muitas inscrições. Contudo, não condeno o encanto dos alunos e das alunas, mas as péssimas posturas, e bem mais comuns do que imaginamos, que alguns docentes empreendem mesmo estando cientes que toda relação entre professor e aluno é uma relação de poder. Durante aproximadamente cinco meses de disciplina, a aluna comentava com as colegas sobre os olhares que o docente lançava para ela e os elogios que a dirigia, sobretudo, no final da aula. Tudo começou quando Clio foi tirar uma dúvida com o professor no fim da aula. Segundo o relato dela, ele se mostrou muito solícito: sanou a sua dúvida e elogiou as intervenções que vinham sendo feitas pela aluna durante as aulas ministradas. Nos dias que se passaram e com dada frequência, ao final da aula, o professor pedia para que a aluna permanecesse na sala pois gostaria de dar uma “palavrinha” com ela. Os bate-papos após a aula iam de esclarecimento de dúvidas sobre as atividades - até mesmo quando a aluna não solicitava o auxílio - a empréstimos de livros e mais livros. Na cabeça da menina, o docente desenvolvia um carinho especial por ela. Nós, que somos professores e professoras, sabemos muito bem que vez ou outra sempre tem aquele aluno ou aquela aluna ao qual nos afeiçoamos mais. Mas o que vou relatar a seguir tomou um rumo diferente do que admitimos como “afeição”. A aluna Clio era uma menina que pertence a uma família com renda baixa, mora na periferia da cidade e precisava pegar duas conduções (totalizando quatro) para ir e para voltar do campus. O docente passou então a oferecer caronas para a menina. Como as aulas eram ministradas no turno da noite, e sempre acabavam às 22 horas, a aluna aceitava de bom grado pois a carona diminuiria o número de ônibus que ela precisaria pegar para retornar para casa, assim como encurtaria o tempo que ela ficava falando dentro de sala com o professor, sendo possível travar a conversa no decorrer do trajeto. Certa noite, ao fim da carona, o professor se despediu da menina alisando as suas pernas, que estavam um pouco cobertas por um vestidinho rendado de cor azul. A reação imediata da aluna foi afastar a mão e dirigir a ele um xingamento. Clio destravou a porta do veículo e saltou rapidamente. Fico imaginando o que deve ter passado pela cabeça da aluna após a ocorrência do abuso. Imagina ser explicitamente assediada por um profissional que você admira e respeita, e com o qual ainda terá que conviver alguns meses pois ele é o tutor da sua disciplina. Mas o uso antiético da autoridade do docente não parou por aí. Dois dias depois, na aula da semana que ocorreu após o assédio, Clio apresentou um seminário avaliativo para a disciplina do docente. A partir do relato dos demais integrantes do grupo e de outros discentes da disciplina, soubemos que tudo se passou de forma muito positiva na apresentação. Também declararam que, ao final da apresentação, o professor teceu elogios à abordagem do grupo, mas fez duras críticas individuais a Clio. A turma ficou sem entender, pois tinha avaliado toda a apresentação como coesa, esclarecedora e de bom conteúdo. Enquanto a aluna chorava, o docente se aproximou e pediu para falar com ela após o final da aula. Muito embora apresentasse medo, a aluna concordou em ficar pois aguardava ouvir a justificativa das críticas feitas a ela. Ao invés disso, o docente propôs um acordo: “aumento a sua nota, se você topar sair comigo”. Não é preciso dizer mais nada… Com muito receio da possível retaliação aliado à falta de segurança para fazer a denúncia, já sabemos qual foi a resposta dada à proposta, Alice. O caso veio à tona quatro semanas após o ocorrido. Clio passou a faltar às aulas do docente. Após ser confrontada pelas amigas, a aluna contou o que havia ocorrido. O caso se tornou público quando as alunas resolveram produzir cartazes denunciando a ocorrência de assédios feitos pelos docentes do departamento. Todo o material produzido foi colado pelos corredores das salas de aulas e pelos murais do departamento de História. Além disso, as meninas se organizaram também para passar de sala em sala, durante as aulas dos turnos da manhã e da noite, sempre pedindo cinco minutos ao professor presente em sala para dialogar e alertar as turmas sobre o assédio moral e sexual de docentes contra discentes. Mas o ápice das ações coletivas feita pelas alunas foi uma denúncia feita à Ouvidoria da universidade, onde uma delatora anônima enviou o relato da Clio com prints do whatsapp que mostravam as intimidações feitas pelo professor. Como você sabe, Alice, estou ocupando o cargo da chefia do departamento desde o início do nosso primeiro semestre. E, após vir a público o caso da Clio, as denúncias de assédio têm chegado em maior número. Não sei se ter uma mulher na posição de chefe acaba incentivando as alunas a denunciarem por sentirem uma certa segurança e confiança - para não dizer esperança que as coisas sejam encaminhadas… No entanto, foi a organização coletiva de mulheres em resposta à má conduta do docente que fez toda diferença. A instituição encaminhou a abertura de um processo administrativo contra o docente, que foi ouvido, e em seu relato culpabilizou a aluna e seu vestido curto de cor azul. Não é preciso dizer que o professor foi apoiado por colegas do nosso departamento, que reclamam de como as alunas “se insinuam” nas aulas. Também, após o caso, a aluna ficou conhecida, pelos colegas de outras turmas, como a menina do “vestidinho azul”. A situação chega a ser constrangedora e triste, Alice. Mas, ainda bem que azul é uma cor que remete à esperança. E é isso que eu tenho: esperança em uma geração que não se cala. Que elas continuem falando então. Com carinho (e esperança), Beatriz.

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Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! # alertagatilho #denúncia #abusos Não sou uma vítima*. O homem entrou, me violou, me roubou. As vizinhas - mulheres brancas de família – acusaram minha conduta, afinal, toda a cena não era suficiente para que eu fosse considerada vítima de um crime. Um desconhecido em minha porta – morto caminhante – foi o primeiro a lançar o vírus que infectou todos à minha volta. Alguém me perguntou, inesperada, se não se tratava de acerto de contas. Contas? Que contas? Iam um a uma virando seus cérebros ao avesso de forma que podíamos vê-los por dentro, muitas partes podres. O fedor que exalavam dificultava a respiração; então, me isolei um pouco. Dois policiais me jogaram em um carro para andar pelas vazias e estranhas ruas do Alecrim à noite, em busca de um violador – com uma vítima que não era vítima, portanto, não precisava ser zelada ou poupada. O pânico cresceu como um vulto, que me engolia do estômago para fora. Luzes, faróis, pessoas, o ruído das viaturas sobre as tampas de bueiro pareciam sucessivos galopantes acertando meus ouvidos. Quem já tomou tapa na cara saberá metaforizar. A menina tá em pânico. Vamos voltar com ela. A menina não conseguia mais se levantar. Delegacia da mulher. Enquanto o homem delegado buscava características físicas do homem agressor para fazer um retrato falhado, eu me dava conta que cada parte de seu rosto que tentava lembrar apenas podia ser acessado uma vez. - Como são seus olhos? E novamente fui olhada. - De qual cor? Não sei. Não consigo mais lembrar. Até que quando o retrato falhado ficou pronto, eu mesma não mais o reconhecia. Ao final, a policial mulher branca me olhou e disse “se fosse comigo eu não teria deixado”. Por certo ela estava sozinha naquela sala quando falou, pois não me viu nem ouviu. Arregalei os olhos e uma falsa ficha caiu. Uma vítima que não podia ser vítima. Então é por isso? Fui eu quem deixei? Mas como? Era tarde demais. O vírus deles entrou em mim como forma de culpa e vergonha, as mãos esquecidas do homem agressor permaneceram anos enforcando meu pescoço de mulher negra e eu não conseguia falar. Falhei. Fali. Saí calada e dilacerada dali, sem poder levantar o peso de meu infortúnio. Ainda era preciso ir ao IML, eles precisavam coletar microvida do morto caminhante homem agressor de dentro da minha corpa meio morta, meio querendo morrer. Talvez para se certificar que era mesmo o vírus da desgraça que pairava nos olhos das pessoas. Prédio amarelo desbotado, de neutro a asqueroso, ali me esperava um técnico, que era também um homem, que poderia também ser um agressor. Não há uma mulher para me examinar? Se não quiser pode ir embora. Grosseiro. Rude. Seco. Era o mesmo técnico que examinava os corpos feridos de balas, das guerras urbanas de periferias, que matam homens como os meus. Um técnico. Homem branco, bigode, eu era apenas mais uma das desgraças na sua mesa de análise. Ao sair dali foi quando eu chorei. E depois disso nunca mais. Precisei de silêncio. Me desprendi do meu senso de dignidade por muito tempo. Como ela lida bem com a situação. Nem aparenta sofrimento. Vergonha, já que a culpa da violência era minha. Medo de andar na rua sem poder me proteger, já que não reconhecia mais o rosto do agressor. Deixei minha casa. Me deram medicamentos que me fizeram adoecer também o corpo. Nem a alma nem a matéria podiam então mover-se, carregar seus pesos, sentir o sol. O homem branco companheiro não precisou de tempo. Contou aos conhecidos mais e menos próximos pois ele precisava desabafar. Você não tem esse direito! Mas eu me senti vítima! Foram meses longos enquanto tentava me curar. Enfim, o corpo sanou. O corpo era meu. O silêncio era meu. A dor era minha. Vítima nunca fui. Ainda preciso lutar pela liberdade da minha imagem sagrada. Naquele tempo eu não entendia o que as pessoas viam quando olhavam para mim. Treze anos atrás entrei no quarto e então, escrevi. Minha voz muda era um pedaço de papel. *Sobre a autora: Stéphanie Moreira (Mamba Negra) é mulher preta e mãe, macumbeira, militante do movimento negro, capoeirista angoleira. Brotou do chão no agreste potyguar. Poeta, tem insistido em não perder novamente sua voz. Escura demais, arredia, diz verdades desafinadas, sua música não sabe por onde anda, mesmo assim ela dança. Performer, seu corpo fala nas ruas, no mato, nas encruzilhadas, sobre as proibições que pesam sobre os corpos de mulheres negras. Também antropóloga, trabalha sobre a criação de memórias por populações subalternizadas no Brasil. Redes sociais - Instagram @acobraveia @nenguavo, e-mail stecamposmoreira@gmail.com, sites: https://stecamposmoreira.wixsite.com/adupe https://agrestenegra.blogspot.com/ Hoje resolvi revisitar-me...** O dia está nublado, quieto, parece um convite a rememorações. Fui para o quarto e coloquei a música que tanto gosto, um som baixinho que se encaixava perfeitamente com o ambiente. Em alguns minutos a vibração sonora espalhava-se por todos os espaços e podia me levar para onde quisesse. Fechei os olhos e fui adentrando no meu interior, cuidadosamente, comecei abrindo os armários da minha alma, procurando por mim. Encontrei-me trancafiada, escondida, esquecida...Que dor! Queria pedir desculpas, abraçar-me e promover o resgate. Mas, antes de qualquer ação, o meu eu levantou-se rapidamente e envolveu todo o meu corpo. Foi tão forte, tão caloroso, foi mesmo arrebatador. Enquanto eu sentia aquela efervescência afetiva, as lágrimas banhavam meu coração, sentia-me tão confortável, estável, feliz. E, uma voz me surpreendeu: -- Estava à sua espera! Já tem muito tempo que você não vem me ver... Observei tudo daqui, seu vôo, sua rotina, seus vícios e delírios. Que linda! Uma linda mulher! Orgulho-me em saber que você sou eu, tinha certeza que este momento chegaria e você viria me buscar para completar o seu mundo. Em algum momento, eu faria falta e você iria me resgatar. Sou sua alma, brilhante, andante.... Olhe para mim! Eu? Sou você! Sua essência, menina brincante, sonhadora. Sou a voz que fica na sua cabeça, gritante, relutante que te instiga a ir longe, cada vez mais longe. Mas, é que às vezes você se esquece de mim e fico aqui esquecida, em um dos armários da sua memória, a te olhar, sonhar e esperar... A vida? Ela não para por aqui! Ande! Me leve com você, ainda há muito para realizar... Com um supetão despertei, a face ainda estava molhada e ainda podia escutar o tinido daquela voz. Queria um espelho, por favor, um espelho! Preciso me certificar de uma coisa, olhei-me e vi o reflexo de uma expressão risonha, vivida que me convida a dançar os embalos da vida e me apresenta o presente. Isso! O presente é tudo que tenho nas mãos, não posso deixar o tempo passar. Enfim a liberdade, trouxe-me de volta à vida, passei a ouvir a voz, a minha voz, a voz da minha alma. Revisitar-se é um ato de coragem, encarar seus medos e anseios, revirar aquele baú cheio de lembranças e recordações que são só suas. Na procura por mim, deparei-me com situações diversas, monstros do passado que precisam ser despertados para transformar-se em seres de luz. È mesmo um processo de cura. Entre olhares, conversas e toques, absolvi uma capacidade de fortalecer o elo comigo mesma, para só depois alcançar o mundo. Sair do quarto, ainda pensativa, mas encorajada. No momento do espelho eu disse TE AMO para mim mesma e fui viver... **Sobre a autora: Liliane Rosado é professora, historiadora, feminista e organizadora da página @Interfaces-femininas. Rede social: Instagram @lilianerosado05

Cartas ao espelho: #relacionamentoabusivo
Cartas ao espelho: #relacionamentoabusivo

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! #alertagatilho #denúncia #abusos Querida Beatriz, Te escrevo para desabafar sobre uma relação abusiva que vivi alguns anos atrás. Finalmente consegui coragem para escrever. Escrever sobre isso é um processo difícil, mas também chega a ser terapêutico. Pois bem, nenhum homem é uma ilha. Tudo que eu faço, engaja a humanidade inteira. Sabe, minha amiga, essas frases, bastante conhecidas, me vieram à cabeça, soltas, quando tomei coragem para te escrever.  Acho que vai ser bom elaborar o que vivi, colocar para fora, relatar minha experiência, meus sentimentos. Talvez minha experiência não caiba só a mim. Você sabe, como muitas da minha geração (tenho 33 anos) cresci planejando ser uma mulher independente e “bem resolvida”. Com minha independência emocional e financeira, jamais me submeteria a ninguém, não me submeteria a nenhuma relação desigual ou de abuso. Só que a vida tem seus próprios descaminhos, não é? Cheios de curvas e bifurcações, cheio de roteiros inesperados. Há três, quatro anos, já não me lembro bem, me vi num momento de muita fragilidade. Insegurança profissional, insegurança existencial, e o Brasil, já desde aquela época, não ajudava. Nossa primeira presidenta sofria um golpe, movido por várias coisas - entre elas, muita misoginia. Com meu doutorado defendido e o país em ebulição, nada mais parecia certo para o meu futuro, eu vi o chão se abrindo sob os meus pés. Mas eu tava ali, aos trancos e barrancos, tentando viver, tentando não desabar, passando uns remendos quando algo se rasgava. Foi nesse momento que apareceu um homem. Esse homem era cheio de si, sabe? Eu nunca tinha visto alguém tão seguro na minha vida. Ele tinha certeza de tudo. Certeza que tudo sempre sairia como ele tinha planejado, certeza de sua própria capacidade, certeza de suas ideias, nada o abalava. Nós nos aproximamos. Esse caldeirão de certezas parecia ser tudo que eu precisava naquele momento. Ele também demonstrava certeza de que queria ficar comigo. Me mandava mensagens o dia todo, me chamava, me elogiava. Rapidamente, ele começou a expor várias certezas sobre mim. Num primeiro momento apenas coisas “positivas”: “Por que você é tão insegura? Como assim você tem medo? Você é tão inteligente, todo mundo gosta de você, você sempre teve tudo!” (Como ele poderia saber que eu “sempre tive tudo”?) Ele não sabia nada da minha vida, mas já tinha montado um quadro completo. Aquilo me fascinava. Me dava um chão firme. “Você não precisa mais ter medo, insegurança”. “Cola comigo, você só precisa de alguém para te dar um norte, vou te dizer o que você deve fazer, vou te ajudar”. “Seremos um casal foda!”. “Tudo que eu precisava para ser mais foda do que já sou era uma mulher como você, você é meu troféu”. Sim, minha amiga, eu realmente escutei essas coisas. Eu sabia, desde o iniciozinho, que algo estava errado, mas eu precisava daquela firmeza, sabe? Daquela potência e segurança. Até então, eu me sentia tão irremediavelmente desamparada, um horror. Com os meses de relação, as certezas sobre mim aumentaram. Só que agora não eram mais “elogios”: -- “Você é fraca”. “Você é ingênua”. “Você não sabe nada da vida”. Eu ouvia essas coisas todos os dias e começava a acreditar: “você é uma privilegiada, como você pode ficar triste?” “como você pode ter dificuldades profissionais?”. “Você precisa de mim, aqueles teus amigos não te servem para nada”. Daí em diante, a desconstrução de tudo que eu era, de tudo que eu tinha conquistado até aquele momento, até mesmo dos meus maravilhosos amigos, acontecia um pouquinho a cada dia. Às vezes o papo ficava mais agressivo: “eu odeio teus amigos e amigas, não me peça para conviver com eles”. Quando eu saía sozinha para encontrá-los, sabia que ia ter muita dor de cabeça depois. Ele não queria ver meus amigos, e também era um problema se eu os visse sem ele. Assim, para evitar o conflito, fui me afastando. E, aos pouquinhos, fui me anulando, anulando… Cheguei a tirar um adesivo do Marcelo Freixo para sair de casa com ele porque, mesmo se posicionando também à esquerda, ele não queria que eu saísse apoiando um partido que não era o dele. Eu tirei o adesivo. Amiga, quando, na minha vida inteirinha, eu, mulher de classe média, escolarizada, feminista, imaginei que fosse me submeter a isso? Eu fui silenciada, censurada, agredida com palavras todos os dias. E, mesmo assim, quando ele arrumou um bom emprego em outra cidade, me mudei com ele. Eu quase desisti. Eu sabia que tudo estava muito errado, mas eu tinha vergonha de ter mais um “projeto de vida” desabando. Eu queria que aquilo “desse certo”. Com o tempo, especialmente quando eu conquistasse meu espaço profissional de modo mais efetivo, as coisas melhorariam. Era o que eu dizia para mim mesma. Quando chegamos à nova cidade, passada a euforia inicial e o trabalho de organização da casa, os insultos e ofensas recomeçaram. Além dessas ofensas, eu comecei a ser controlada e julgada em cada um dos meus atos. Eu tinha que ir malhar todos os dias. Eu tinha que acordar muito cedo para estudar. Já que eu estava apenas com alguns alunos de francês à distância e passava a maior parte do tempo em casa. eu também tinha que ser a principal responsável pelos afazeres domésticos, claro. Ele ainda tinha sido muito legal de pagar uma moça uma vez na semana, “para você ter tempo de estudar”. Fiz meu primeiro concurso nesse novo lugar em que morávamos. Passei na prova escrita e fui eliminada após a prova aula. O que ouvi, foi: “você não sabe fazer prova aula, a culpa é sua”. Fiz outro processo seletivo, com análise de projeto de pesquisa e entrevista. Fiquei em segundo lugar, e ouvi: “como você pode ser assim, você não sabe fazer entrevista, você só faz merda”. A partir de um determinado momento, comecei a me sentir um fantasma dentro daquele apartamento. Era como se eu tivesse sendo uma espectadora da minha própria vida, sabe? Eu tinha medo de fazer qualquer coisa que pudesse desagradar. Eu já não sabia o que fazer para agradar. Eu era criticada em tudo. Aquilo que era um abuso diário e constante passou a ser um assédio explícito. Eu passei a ser ameaçada. “Você tem que dar um jeito na sua vida”. Eu tinha um terceiro processo seletivo para fazer. Ainda não estava inscrita. Eu ouvi que eu tinha que passar, mas que com o meu currículo (“fraco”, assim como eu), ele tinha certeza que eu não passaria (eu tinha um doutorado defendido, eu tinha artigos publicados, eu tinha alguma experiência de aula). Eu não posso contar o fim desse episódio. Só posso dizer que não sofri agressão física, mas o nível de agressão psicológica chegou ao extremo. Juntei minhas coisas (quase nada) e fui para um hostel. Liguei para os meus pais, para os meus amigos e minhas amigas. Voltei para minha cidade. Consegui dois empregos e, depois, um terceiro, ainda melhor. Eu ainda estou juntando os cacos, sabe? Acho que é um processo demorado mesmo. Mas eu sei que eu conquistei muita coisa depois dessa relação. Eu redescobri meu valor, eu voltei a escrever, a me posicionar publicamente e fui reconhecida por isso. Eu tenho muitas pessoas maravilhosas ao meu redor. Eu reconstruí muita coisa e ainda criei mais um monte de coisas novas. Eu sei que muitas mulheres não têm o apoio que eu tive. Elas tinham que saber que não estão sozinhas. Que nada do que eu passei, e que eu sei que muitas passam, é normal. Que está tudo bem terminar, mesmo quando a gente pensou que ia dar certo. A gente erra, faz escolhas ruins, todo mundo faz. É normal errar, é preciso saber romper, é preciso falar, soltar a voz, relatar, gritar se for preciso. “Companheira, me ajuda, que eu não posso andar só. Eu, sozinha, ando bem. Mas, com você, ando melhor." Obrigada por tua escuta. Um beijo, minha amiga. Fique bem. Com carinho, Alice.

Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula
Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! #alertagatilho #denúncia #abusos Oi, Bia. Como anda a vida? Por aqui as coisas vão bem, na medida do que é possível “estar bem” em tempos de pandemia. Esses tempos de isolamento social não têm sido fáceis, mas a nossa troca de cartas tem me ajudado. Eu sei que o assunto que eu vou tratar hoje vai pegar você de surpresa e talvez você se pergunte o porquê de eu não ter dividido isso antes, mas não leve a mal, acho que eu só não queria revisitar um assunto que ainda é doloroso. Você me entende, eu sei. Como você sabe, antes de vir para o sertão alagoano, eu estava professora de uma escola particular em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Naquele dia, que parecia ser apenas uma sexta-feira comum de fevereiro de 2018, na turma do terceiro ano do Ensino Médio, discutimos sobre Islamismo, Feminismo e Ocidentalização com base no texto “A mulher no Oriente Médio e o feminismo islâmico”, escrito por Claudia Santos. Tirando alguns risinhos debochados, olhares de reprovação e breves reclamações sobre o tema, a aula ocorreu tranquila (pelo menos foi o que eu pensei). Expediente encerrado, no horizonte, mais um final de semana de Netflix e leituras do mestrado. Já passava das vinte e duas horas do sábado, quando meu celular apitou avisando que havia uma nova mensagem no WhatsApp. Li as mensagens, ouvi os áudios e não quis acreditar: eu havia sido adicionada em um grupo e estava sendo xingada com frases sexistas e misóginas. Percorri a lista de participantes, reconheci alguns rostos e vozes, apesar de eu não ter nenhum daqueles números na minha agenda, percebi que eram alunos e ex-alunos da escola na qual eu estava professora. Pelo curto espaço de tempo em que permaneci ali, antes de ser removida por um deles, me mantive em silêncio. Tentei digerir o que estava acontecendo e então a ficha caiu: um bando de rapazes (eu diria moleques, mas estou tentando ser polida) estava me insultando abertamente em um grupo do WhatsApp e se divertindo com isso. Passei o final de semana bancando a detetive particular (você sabe que sou boa nisso), na tentativa de associar nomes e rostos àqueles números de telefone e, depois de um domingo inteiro, consegui. Na segunda-feira, depois das aulas ministradas, procurei a coordenadora disciplinar. Narrei em detalhes o que havia acontecido, apresentei as informações que eu havia coletado e ela ficou de levar o ocorrido à direção da escola. Meses se passaram (isso mesmo, meses) e os alunos não foram chamados na coordenação, eu sabia disso porque a história não estava circulando pelos corredores da escola, como era costume. Quando eu perguntei o porquê, a coordenadora respondeu: “Lucila, eu não chamei os alunos para conversar porque aconteceu fora da escola”. Fiquei sem acreditar e respondi: “Sim, mas envolve alunos da instituição!”. Na minha cabeça, a postura da coordenação, que eu pensava ser também a postura da direção, ia de encontro à missão da empresa “ o desenvolvimento integral dos educandos”. No caminho para casa, planejei mil formas para resolver aquele assunto sozinha. Eu não admitia (ainda não admito) que aqueles jovens ficassem sem punição, mas se tratava de uma instituição particular, que não estava se importando com o bem estar de uma docente. Duas coisas me fizeram desistir de seguir com qualquer um dos meus planos: eu não tinha autonomia para responsabilizar institucionalmente, muito menos juridicamente, aqueles jovens e, infelizmente, eu precisava daquele emprego. Os dias que se seguiram não foram fáceis, me senti derrotada (é como me sinto até hoje). E, apesar de não querer admitir, eu precisava pedir demissão daquele lugar. A verdade é que aquela escola já não me fazia bem desde 2017, quando fui perseguida pelo professor de geografia e a instituição não soube lidar com a “mediação do conflito”, este criado por um homem machista, que se sentia oprimido pela profissional que eu era e que não admitia que eu não precisasse dele como mentor, conforme ficou claro na conversa que tivemos. Mas isso é assunto para outra carta. Em junho de 2018 marquei uma reunião com a direção para avisar que eu não continuaria como professora da escola depois das férias de julho. Durante a conversa, expliquei os motivos da minha saída e, pasme, a coordenadora não havia levado o assunto do tal grupo do WhatsApp para a direção. Como aquele era um assunto desconhecido da diretora, revisitei os fatos daquele final de semana de fevereiro, enquanto narrava os detalhes do que havia acontecido. Mesmo com a minha saída iminente, a direção convocou os adultos responsáveis pelos alunos para uma reunião, da qual eu não participei e na qual fui acusada, por uma das mães, de perseguir um “pobre menino inocente, que fez uma brincadeira e não entendia a gravidade do que disse”. O assunto foi dado como encerrado, os alunos não foram responsabilizados e eu segui a vida bem longe dali. Hoje, mais de dois anos depois, esse ainda é um assunto que me deixa triste e frustrada. Você sabe, não gosto de assuntos inacabados e carrego comigo um sentimento, uma necessidade de justiça. Mas eu precisei me afastar daquilo tudo, principalmente porque entraria nos seis meses finais do mestrado e eu tinha uma dissertação para terminar. Espero que agora você entenda o porquê de eu ter demorado tanto para escrever sobre isso. Saudades das nossas conversas na varanda da sua casa. Um abraço enorme, Bia. Ansiosa pela sua opinião sobre isso, Lucila. Lucila Barbalho Nascimento é apenas uma feminista potiguar que mora no sertão alagoano e está em constante (des)construção. Historiadora de formação e apaixonada pela docência. Uma leonina que não gosta de espelho e é viciada em séries. Fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Feministas Dandara Dos Palmares (instagram @gefem_dandaradospalmares). Seu Instagram pessoal é @lucila_barbalho.

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

TODA MULHER JÁ FOI ASSEDIADA! A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Diante dos últimos acontecimentos envolvendo denúncias de assédios sexuais, a Revista Mulheres do Fim do Mundo preparou uma edição especial da coluna Cartas ao espelho para o nosso número de dezembro de 2020. Assim, a nossa coluna trouxe 13 relatos, anônimos, de assédios vivenciados por várias mulheres. Os depoimentos divulgados nos foram por algumas leitoras que utilizaram a # da nossa pequena campanha: #FoiAssedio. Confiram os relatos. #FoiAssedio quando o meu professor de Química, do ensino médio, propôs que eu ficasse com ele e em troca eu ganharia um aumento na minha nota final na disciplina. #FoiAssedio quando eu estava andando na rua e fui perseguida por um homem dirigindo um carro lentamente, acompanhando meus passos, enquanto me dirigia palavras obscenas de dentro do carro. Isso tudo em plena luz do dia. #FoiAssedio Já fui assediada e abusada em tantas instâncias na minha vida que nem sei exatamente qual falar aqui. Desde bem pequena, familiares, médicos, namorados, professores... Triste conhecer essa realidade tão cedo. Mas acho que uma das minhas piores memórias foi de um professor meu. Ele dava minha matéria favorita e dizia que eu era sua aluna favorita. O problema é que esse professor assediava todas as suas alunas e, quanto mais "especial" ela fosse, mais frequentes eram os assédios. Ele nos tocava, nos abraçava por trás, queria ficar sozinho conosco após a aula, todas tínhamos medo dele. Eu tive tanto problema com isso que comecei a ficar mal na matéria para não receber atenção, o que não funcionou. Na verdade, piorou tudo. Por anos, evitei chamar a atenção de professores, por causa desse em questão. E o pior é que, por mais que várias alunas já tivessem sido suas vítimas e algumas até tivessem colhido depoimentos sobre, ele continuou na escola, por anos e anos. #FoiAssedio Viajando sozinha pelo Uruguai, perdi meu único cartão de banco, sem nenhum peso a mais. Era Natal e de repente batiam à porta desafios de como pagar o que comer... Conversava sobre isso (um pouco desesperada) com um amigo na venda que eu frequentava. Quando o amigo foi embora, ficamos somente eu e o dono da venda, um senhor com seus 60 anos. Ele me pergunta o que vou fazer no natal, se eu gostaria de passar com ele, e se oferece para me emprestar dinheiro ou me dar, pois tinha ouvido o relato da situação vulnerável em que eu estava. #FoiAssedio Eu mudei de profissão por conta de assédio. Sempre fui secretária, comecei a trabalhar com o meu pai numa empresa estatal e lá mesmo, o chefe dele na época, em um Dia da Secretária me mandou o seguinte discurso “você só passa perrengue por que quer, o que não falta são pessoas querendo te ajudar.” Contado assim pode parecer rotineiro “Ah, pára... só preocupação !” Mas, o tom da voz, o olhar, o jeito. Me dá até nojo lembrar. E o que somos instruídas a fazer? “Faz cara de paisagem...”. Não era paisagem. Durante os 15 anos em que exerci a profissão de secretaria sempre sofri assédio. Durante ou depois de ter trabalhado com esses senhores. Simplesmente horrível. Hoje trabalho com a Educação Infantil. Prefiro lidar com egos do que me sentir acuada. #FoiAssedio Morando no Rio de Janeiro a maior parte de minha vida, e me deslocando para o trabalho sempre de metrô ou ônibus, perdi a conta de quantas vezes me senti acuada, amedrontada, optando até mesmo por descer do transporte em razão do comportamento de homens que tentavam me tocar ou “esfregar-se” em mim. #FoiAssedio Tive um namoradinho que, um belo dia, chegando na minha casa pra me buscar pra irmos jantar disse: “Ué… mas você não tá pronta! Vc ainda tá de pijama! Vc vai trocar essa roupa, né?!”. Eu tava com um vestido curto que não tinha NADA de pijama. Me senti péssima e fui trocar de roupa. #FoiAssedio e hoje em dia luto para que cada vez menos mulheres tenham que passar por esse tipo de coisa. #FoiAssedio Eu tinha uns 13 anos quando, pela primeira vez, saí pelas ruas de Copacabana depois do “show de fogos de artifício” do Ano Novo. Eu estava com meus irmãos, primos e primas. Também foi a 1a vez que vesti uma mini saia. Eu fiquei pra trás do grupo com uma prima mais velha que tinha parado pra comprar bebida e um bando de homens passou pela gente e um deles agarrou minha bunda. #FoiAssedio e o pior é que antes que eu pudesse reagir minha prima me segurou e disse que aquilo era coisa de homem e que eu deveria me acostumar. Só vesti uma mini saia de novo uns 15 anos depois, e ainda assim me senti desconfortável. #FoiAssedio Eu estava bêbada num bar e pedi desconto numa cerveja. Meio de zoeira, meio no “vai que cola….”. Um cara começou a conversar comigo e me encher o saco se oferecendo pra me pagar a tal cerveja. Na hora eu ri, falei qualquer coisa do tipo “não, tô de boa, tô zoando” e saí, mas foi muito tenso, fiquei muito bolada e o cara ainda foi atrás de mim. #FoiAssedio No ano de 2014, eu e mais duas amigas brincávamos carnaval na cidade de Olinda/PE. Quando estávamos em um determinado bloco, fui puxada por um homem que me beijou à força. Ele simplesmente me beijou, enfiou a língua dentro da minha boca e saiu. #FoiAssedio Estava em uma roda de samba no bar no bairro da Lapa,Rio de Janeiro. Estava rolando uma roda de samba nele. Me afastei da mesa que estava e fui ao banheiro. No caminho, um homem esfregou uma latinha de cerveja nas minhas costas enquanto me chamava de “gostosa”. #FoiAssedio De madrugada, após sair de uma festa, eu e uma amiga pegamos um uber para irmos para casa. Eu fui a última a ser deixada. Durante o percurso da casa da minha amiga até a minha casa, o uber perguntou se eu tinha namorado e passou todo o trajeto dizendo que eu era linda e sexy. No final da corrida, ainda pediu meu número de telefone. #FoiAssedio Chamei um eletricista para resolver um problema no quadro de energia da minha casa. Ele já havia prestado outros serviços em minha residência. Dessa vez, eu estava recém-separada e recebi o homem sozinha em casa. No final do serviço, ele perguntou pelo meu ex-marido e eu informei que havíamos nos separado. O homem começou a me tecer elogios (dizendo que eu era uma mulher muito bonita e sexy) e disse que, agora que era uma mulher sozinha, eu precisaria de um homem em casa. E acrescentou que, quando eu precisasse de um homem, poderia chamar ele. Ligue 180 Qualquer assédio contra a mulher pode ser denunciado pelo número 180. A denúncia pode ser feita de forma anônima e é importante fornecer a maior quantidade de informações possíveis, para que haja material suficiente para uma investigação e possível responsabilização do agressor. O fato da denúncia ter sido feita pelo 180 não impede que a vítima vá até uma delegacia fazer um boletim de ocorrência também. A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é uma política pública essencial para o enfrentamento à violência contra a mulher em âmbito nacional e internacional. Por meio de ligação gratuita e confidencial, esse canal de denúncia funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Brasil e em outros 16 (dezesseis) países: Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela. Em casos de violência contra crianças e adolescentes a denúncia pode ser feita no conselho tutelar, no Ministério Público e/ou na Delegacia da Infância e da Juventude (se não houver delegacia especializada, busque uma delegacia normal). Denuncie!

Cartas ao espelho #assediadapelopai
Cartas ao espelho #assediadapelopai

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. #alertagatilho Querida Beatriz, Este não é um relato inédito. Já o compartilhei com várias pessoas. As primeiras que me lembro foram meus irmãos, que, ambos, ignoraram o que tinham ouvido. Alguns anos depois, teimei e contei de novo ao meu irmão mais velho. Com o coração palpitante de quem só espera uma resposta e algum acolhimento, disse a ele que nosso pai havia me assediado em um bar afirmando que eu não era sua filha, mas uma mulher muito bonita. Tentando beijar com seus lábios molhados a minha mão, me desvencilhei, e ele, trôpego de bêbado, não se manteve em pé. O deixei então no chão do bar, sob os cuidados do dono. Desta vez, me lembro bem da reação de meu irmão: me disse ele, que eu deveria perdoar. Em meu aniversário ele me mandou ainda uma mensagem, me desejando, além dos parabéns, perdão. * Me lembrei de um terapeuta holístico que, ao escutar a mesma história, me disse que eu "emanava uma energia de desejo para meu pai", não uma "energia de filha". * Fico pensando que entre o perdão e a culpa não há uma diferença assim tão grande. A relação entre o perdão (o problema estava em mim por não perdoar) e "enviar energias sexuais" (a culpa por ser assediada era minha já que eu estava emanando energias de horizontalidade) é o fato de responsabilizar a vítima pela agressão sofrida. Se te escrevo hoje, é inspirada por um caso de um conhecido cientista político que foi acusado de abusar de seu enteado adolescente durante anos a fio e ter sido protegido pela "família grande". Esse é, aliás, o título do livro escrito pela irmã da vítima - que denuncia e documenta todo o caso. A “família grande” era os amigos, a mulher, os parentes, os outros filhos, a extensa rede de intelectuais que frequentava a casa. Se te escrevo hoje, querida amiga, é porque sei que a “família grande” pode contribuir com a conivência, com a negação, com o descaso, com a culpabilização, com o silêncio de abusos cometidos contra crianças e adolescentes, frequentemente praticados por alguém próximo, e que podem ter suas vidas destroçadas. Mas a “família grande” também pode denunciar, acolher, amparar e, sobretudo, não silenciar. Acho que você me entende bem. Ao tornar pública a família grande - como fez a autora do livro - podemos servir à proteção da vítima e evitar novos assédios. Podemos também dizer que não aceitamos, que a negação, a culpa e o silêncio não nos são mais suficientes. Com carinho e esperança, Júlia

Cartas ao espelho #amorpróprio
Cartas ao espelho #amorpróprio

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa 8ª edição, recebemos um texto especial da colaboradora Vivian Fróes para a coluna Cartas ao espelho. Leiam: Transluza Gente, hoje eu vim falar sobre amor próprio. Mas não aquele amor próprio pra postar nas redes sociais, só para aparecer e fingir que está bem. Não um amor egóico. Aquele amor próprio MESMO. Verdadeiro, humano, puro, humilde e genuíno. Uma luz que cultivamos lá dentro de nós, e que jogamos para dentro, e para fora. De se olhar no espelho, e se valorizar, saber reconhecer seus valores, qualidades, e aquilo que não souberam e >>não quiseram<< valorizar, admirar. Sobre cuidar de você mesma, se preservar de determinadas situações, ser feliz em seu próprio cantinho, universo, e fazer dele querido e especial. Sobre não permitir mais que te machuquem ao ponto de te fazer perder o prumo, os eixos, a sua identidade e a sua origem, nem acreditar que você é uma pessoa indigna de que lhe façam companhia, sejam fiéis, te amem, e fiquem - e desejem ficar - para sempre com você. Eu sofri tanto no meu antigo relacionamento. Não pelas dores, desafios, brigas. Isso era o de menos, porque isso faz parte de todo relacionamento. Mas pelo abandono, pela indiferença. Pela falta de amor! Amor esse que é uma construção, longa, dura, árdua, difícil. De batalhas, sofrimentos, conquistas, vitórias. Vencemos tanta coisa juntos. Coisas inimagináveis. Se soubessem da missa a metade do que eu vivi e fiz por ele, jamais iriam acreditar. Daria um livro. No final, fiquei só. Fui deixada. Fui esquecida num estalar de dedos. Como se jamais tivesse conhecido essa pessoa. É assustador. É traumatizante. Às vezes achamos que vamos enlouquecer. Fiquei completamente perdida, sem entender nada. Nadando no vazio sem sair do lugar. Perdida nos confins mais profundos dos sentimentos e pensamentos. Parece que de uma hora pra outra, tudo virou um pesadelo. De todo o mal que possamos ter sofrido, nada, absolutamente nada é comparável ao abandono. Pois quando se ama não desiste. Ainda mais, tendo vivido tantas infinitas coisas, extremamente difíceis, e tendo superado. Depois de tudo que fiz por ele e ainda vinha fazendo. Estávamos na melhor fase do nosso relacionamento! Até hoje não entendi o porquê. E aí me peguei arrumando coisas em casa, e dentre elas achei esse presente que tinha dado pra ele. E pensei em mandar no frete para o endereço em que ele está, assim como fiz com as coisas dele depois de 1 mês ele tendo sumido. Mas mudei de ideia. E resolvi ficar. Resolvi transformar esse coração no meu amor próprio. Amor esse, que diante da conjuntura, se fez tão necessário, mais do que nunca. Independente dos motivos, e do que passamos na vida, ninguém pode ter o poder de lhe tirar isso. Nada justifica. Então, hoje, aprendi que a única pessoa que eu não posso tirar da cabeça, sou eu mesma! Pois a vida me ensinou, que a força da mulher (trans, cis, negra, branca, indígena, umbandista, católica, seja qual for a condição) está no amor próprio. Pois os homens são literalmente, capazes de lhe destroçar em mil pedaços quando querem. Pois não tenho dúvidas que o que eu passei foi machismo. E isso é algo que todas nós sofremos. E esse abandono, é algo que eu já sofri a vida inteira! Eu já sofri tanto nessa vida! Cansei de sofrer! Cansei do machismo! Para ele mais, não derramo nem >>uma<< gota de lágrima. Então levanta a poeira mulher, seja qual você for. Porque ninguém tem o direito de lhe arrancar a vontade de viver, o amor próprio, e a felicidade! escrito por: Mulher trans, em constante transição. Transformação. Transigência e transmutação. Trans"formem"-se! Transluza! Vi FF* Legenda: fotos da autora do texto no evento realizado no Teatro Oscar Niemeyer, em que a mesma recitou outro texto de sua autoria: "Espelhos" . *Vivian Fróes é Cantora, Pianista, Regente, Preparadora Vocal, Professora, Atriz e Autora. Trabalhou 3 anos e meio no Museu Imagem e Som sob a chefia do Alexandre Loureiro no Setor de Partituras e depois foi coordenadora da Empresa NAVARRO nos serviços prestados ao Projeto de Catologação da Rádio Nacional. Entrou inicialmente para Bacharelado em Regência Coral na UFRJ e depois fez mudança para Bacharelado em Canto Lírico, à qual atualmente é graduanda. Foi Regente do Coral do Banco do Brasil de 2012 a 2016 e Monitora desde 2015 na Disciplina de Canto Coral da Doutora Valéria Matos na UFRJ. Mezzo-Soprano, é artista solo e já fez vários shows acústico em Eventos LGBT+ e especialmente no Mês da Visibilidade Trans. Mulher trans, é atualmente Organista na Paróquia Anglicana Todos os Santos em Niterói e Professora de Canto Coral na "Orquestra nas Escolas". Tem histórico como ativista nos Movimentos LGBT+ e principalmente no Movimento Trans. Formada no Curso de Extensão "Mídia, Violência e Direitos Humanos" do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, e atualmente faz parte do corpo de colaboradores do Projeto.