Cartas ao Espelho

Carta ao espelho: confissões - 12ª edição #alertagatilho
Carta ao espelho: confissões - 12ª edição #alertagatilho

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Querida Beatriz, Tenho andado um tanto reflexiva nos últimos dias. Há cerca de uma semana, em isolamento protetivo, estava eu organizando minhas coisas e me deparei, acidentalmente, com uma cópia empoeirada da minha tese. Desde então tenho rememorado o trauma daquele concurso e muitas lembranças e histórias, minhas e de outras mulheres, povoam o meu pensamento. Tenho pensado sobre como nós, mulheres, com toda nossa diversidade interseccional, sofremos violências como uma constante em nossas vidas, mas também sobre como, a despeito delas, existimos como desejamos. E me lembrei da história de uma mulher. Essa é uma história de violência, mas também de sobrevivência, resiliência, resistência, mas, principalmente, de transcendência. Compartilho com você a história dessa mulher, que é uma de nós. Mas vale uma advertência, minha querida Beatriz. Apesar dos traumas das violências sofridas, não pensemos se tratar de uma mulher derrotada. A mulher sobre a qual falarei é teimosa em sua determinação e desejo de liberdade. Ela é uma mulher feliz e amada, uma mulher que conquistou o necessário para existir sem amarras, em seu próprio mundo. * Depois de me narrar uma série de violências sofridas ao longo de sua vida, hoje, já na meia idade, ela me confidenciou que sua brecha de negociação com o patriarcado é extremamente estreita. Em suas palavras, “nessa brecha cabe apenas o que me parece indispensável à sobrevivência nesse mundo, que é dos homens”. Isso, segundo ela, gera problemas de relacionamento e dificuldades de aliança, com homens e com mulheres. Mas que tipo de violência estaria por trás de tamanha indisposição em negociar? A essa pergunta ela me respondeu com algumas “confissões”, dentre as quais as que destaco a seguir: Confissão número 1: “Eu era uma criança pequena, apesar de gordinha, e o poder da minha imaginação dava de 7x1 na minha estrutura física (sim, eu adorava futebol e fiquei meses sem conter o riso quando, num sorteio, ganhamos uma bola da copa de 1990). Eu era pura potência, força e sensibilidade, de uma doçura desengonçada e um gênio difícil. Adorava brincar, sem fronteiras de gênero (viria daí a dificuldade do gênio?). Gostava de dinossauros, acreditava em seres extraterrestres e, mais ainda, que a Tilinha, minha cadelinha, com um pano na cabeça nos faria voar na minha bicicleta com cestinha. Essa garotinha, aos sete anos, foi vítima de um predador sexual, seu tio-avô, um homem com fama de tarado e sobre quem se ouvia burburinhos de que já havia abusado do filho, das filhas, da neta e até de uma vizinha. Naquela época, me parece, se silenciava muito mais do que hoje sobre violência sexual na família. Ele nunca foi responsabilizado por nenhum desses casos e já está morto.” * Confissão número 2: "Eu era adolescente quando me apaixonei por um garoto. Ele era motoboy e me levava para baixo e para cima em sua moto. Era divertido. A gente transava, fumava maconha, ouvia música e se divertia muito. Ele frequentava a casa dos meus pais e eu a casa dos pais dele. Almoço de domingo em família, ele estava lá e nós estávamos contentes. Eu confiava nele. Um dia estávamos sozinhos na casa dos pais dele e algo aconteceu, contra a minha vontade. Eu disse não, não quero, não porra! Mas foi assim mesmo, contra a minha vontade e à revelia de todos os meus nãos. Apenas 20 anos depois eu entendi que namorados também estupram e que aquilo pelo que passei, sofrendo em silêncio e sozinha, era um estupro.” Confissão número 3: Eu já estava na Universidade, estudava História. Eu tinha na época um namorado super gente boa, somos amigos até hoje, meio que irmãos. Eu estava na casa dele quando finalmente minha mãe conseguiu falar comigo. Naquela época meus pais estavam em um processo doloroso de separação e todas nós vivíamos uma experiência de profunda transformação em nossas vidas. Acontece que meu pai decidiu viver outra vida, ao mesmo tempo em que pretendia nos privar das nossas. Embora eu não estivesse em casa, o plano era matar todas nós. Cenas de filme de terror. Pulou o muro. Os cachorros não latiram porque o conheciam muito bem. Pegou minha mãe e minha irmã de surpresa e partiu para cima das duas com uma faca aos gritos de “eu vou matar vocês”. Ambas gritaram, correram e, se esquivando dos golpes, se trancaram em seus respectivos quartos. O cabo do telefone sem fio foi desconectado pelo meu pai, para evitar que elas ligassem para alguém. Nossas vizinhas, igualmente calejadas no tema da violência doméstica, chamaram a polícia, que chegou a tempo de impedir a tragédia. Ainda hoje tenho vários pensamentos contrafactuais quanto ao que teria acontecido se eu estivesse em casa naquela noite. Penso nisso, especialmente, porque a porta do meu quarto tinha um defeito (não podia ser trancada) e também porque eu não costumava fugir dele, eu o enfrentava…” ... As confissões daquela mulher me impactaram profundamente e, como você deve imaginar, a lista é muito maior. Contudo, nada parece superar essas três confissões que mencionei. E, se entendi bem o que ela me disse, são essas as experiências que ela evoca sempre que precisa dizer para si mesma que irá sobreviver a mais uma violência simbólica, a mais uma tentativa de manipulação, de distorção de suas palavras, de expropriação de suas ideias, de deslegitimação de seus argumentos, de ridicularização de seu jeito, de insinuação de loucura, da acusação de agressividade, da pecha de arrogante, etc., etc., etc. E, ao fazê-lo, ela completa sua estratégia cíclica de sobrevivência diária, solta uma imensa gargalhada interior e libera para seus agressores um olhar de desprezo e um ar de superioridade, assim como quem diz… eu transcendi! É isso! Um abraço de sua querida amiga, Alice.

Cartas ao espelho: A solidão afetiva da mulher negra ou qual é a cor do amor?*
Cartas ao espelho: A solidão afetiva da mulher negra ou qual é a cor do amor?*

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Olá, minha querida Alice. Quanto tempo não trocamos cartas, não é mesmo? Espero que por aí as coisas estejam bem. Já adianto que por aqui as coisas estão “sobrevividas”. Chegamos na metade do ano. O mês de junho me rememoram os festejos juninos em São Cristóvão, as deliciosas comidinhas típicas, fogueira, quentão, brincadeiras, música… as cores, sabores e os sons do São João também me trazem saudades da infância em Sergipe, no Nordeste... Parece que tudo ganha mais cor quando irrompe os dias juninos. Junho também traz o dia dos namorados e nessa carta eu gostaria de fazer-te um desabafo sobre o amor. Por esses dias tenho me pegado pensando: “qual é a cor do amor?”. Minha estimada amiga, parece um questionamento bobo motivado por todo apelo do amor romântico propagado nas proximidades e durante o dia 12 de junho. Porém, tudo parece ter maior profundidade quando esse questionamento parte de uma mulher negra, que se depara com a resposta (e constatação) ao seu próprio questionamento, como se fosse uma retórica. O amor tem cor? Sim. A branca. O questionamento funda-se em histórias de vida e na observação de aspectos de afetividade da mulher diante da complexidade das relações heterossexuais. O tema do amor e da sexualidade nas relações homem e mulher perpassam a discussão sobre a questão do poder: o status dominante do elemento masculino em detrimento do elemento feminino. Acabamos recorrendo a explicações sociais, políticas e econômicas (sobretudo, enfatizando o papel do trabalho) como fator de resolução da desigualdade ou possibilitador do alcance de um igualitarismo entre os dois sexos. Desigualdade esta que se apresenta nos conflitos submissão x dominação, ativo x passivo, infantilização x maturação. Quando falamos da mulher negra, principalmente, a situação referente às questões de gênero, passam a ser pensadas a partir de uma perspectiva que ressalta a condição racial. Ora, cai pra nós, querida Alice. Sabemos que os enfrentamentos das mulheres brancas não condizem com o das mulheres pretas desse país. A mulher negra, na sua luta diária durante desde os tempos de escravidão no Brasil, foi contemplada como mão de obra na maioria das vezes não qualificada. No século XIX, enquanto as mulheres brancas reivindicavam a ocupação dos espaços públicos, as mulheres negras já conheciam bem esse âmbito ocupando espaços subalternos... O espaço público legado às mulheres negras foi o espaço do trabalho escravo. Nessa perspectiva, se o lar era o ninho, guarda, proteção do que é puro, o trabalho fora do lar foi considerado a ameaça, o promíscuo. Era “o cabaré”, nas palavras da historiadora Margareth Rago. A mulher branca é separada do mundo do trabalho produtivo, ela pertence à economia doméstica. Até mesmo na emergência do capitalismo industrial no século XIX e de suas propagandas o termo “mulher” se tornou sinônimo de “mãe” e “dona de casa”, duas categorias negadas às mulheres negras. Devido à escravidão, a condição de propriedade e de coisa, a unidade de trabalho lucrativo colocava o homem negro e a mulher negra em par de igualdade. No entanto, a julgar pela ideia de feminilidade, em vigor no período oitocentista que enfatiza o papel das mulheres enquanto mães protetoras e donas de casa frágeis e amáveis, as mulheres negras eram consideradas uma anomalia em seu gênero. Mesmo com o uso dos seus úteros, colocados disponíveis à reprodução dos pés e mãos do sistema escravista no país, a condição de “maternidade” não as acompanhava. Para a mulher negra, não cabia a exaltação da maternidade e nem mesmo o (mito do) amor materno. A mulher negra não era mãe. Aos olhos do senhor de engenho, ela era fêmea, era reprodutora, cuja a “cria” poderia ser vendida como mercadoria. Como dizia mesmo aquele antigo ditado colonial? Pois bem, a “reza” era “brancas são para casar, pretas para cozinhar e mulatas para foder”. E das fodas violentas nas senzalas brasileiras nasceu (e festejou-se) a miscigenação brasileira. Ou seja, as mulheres pretas, desse solo Brasil, foram concebidas por meio de atos de não-amor, atos de pura violência. Portanto, das mamas ao útero, o corpo da mulher negra foi/é violado por completo na história do Brasil. Mas não é sobre a condição sexual que eu quero desabafar, Alice. É sobre a nossa condição amorosa. Me parece que as pessoas não foram ensinadas a amar às mulheres pretas… Resgato o ditado colonial mencionado nessa carta. Apesar dos tempos longínquos, o pensamento de que não fomos feitas para casar perdura. Isso explica, por exemplo, porque dificilmente vemos um catálogo de noivas pretas, não é mesmo? Pensando sobre a ideia do mito do amor romântico, não somos as que casam, não temos finais felizes. Em pares românticos nas novelas brasileiras, nas produções cinematográficas, nos romances escritos, as mulheres pretas brasileiras aparecem solitárias (isso é, quando aparecem!), são anônimas, são mulheres sem histórias... quanto mais uma história de amor. Surgem sozinhas e terminam as narrativas tão sozinhas da mesma forma como surgiram. Na história da vida real, as mulheres pretas também são sozinhas, Alice. Sozinhas, nas camadas mais baixas da população, cabe à mulher negra ser o eixo econômico em que gira a família. Essa família não obedece aos padrões patriarcais, muito menos aos padrões modernos de constituição nuclear. Ou são famílias as quais o pai se fez ausente e deixou para a mãe a criação solitária dos filhos e filhas, ou são das famílias formadas por todos aqueles (filhos, maridos, parentes) que vivem as dificuldades da extrema pobreza. Por fim, numa família preta, são poucos aqueles que cruzam a barreira da ascensão social. Por outro lado, se essa mulher preta atinge um determinado padrão social, a solidão a acompanha nas rejeições que sofrem em suas relações afetivas. Voltando às lembranças do São João, me recordo das raras vezes em que eu era escolhida para ser o par de alguém nas quadrilhas… Na adolescência, enquanto vemos as amigas brancas terem seus primeiros “namoradinhos”, constantemente nos colocam na posição de “amiga”. Já na fase adulta, a escolha dos homens passa pela crença de que ela seja mais erótica ou mais ardente sexualmente que as demais, crenças essas relacionadas às características de seu físico (bunda grande e seios fartos), muitas vezes exuberantes… Muitas vezes, a escolha serve para o ato sexual, poucas vezes para assumir essa mulher preta enquanto companheira para a sociedade. Nesse sentido, quase sempre preterida e dificilmente preferida, a mulher preta possui um trânsito afetivo limitado. Convivendo em uma sociedade que privilegia padrões estéticos femininos como aqueles cujo ideal é de um maior grau de embranquecimento. Em uma organização social cuja a cor do amor é branca (ou embranquecida, de cor e de traços), poucas são as chances para essa mulher numa estrutura em que a atração sexual está impregnada de modelos raciais e é ela a representante da etnia mais submetida. A solidão afetiva da mulher negra fica mais visível para mulheres de pele mais escura, de cabelos crespos e gorda. Para nos livrar do preterimento, por vezes escutamos: “você deveria optar exclusivamente por parceiros pretos…” Como se a rejeição da afetividade às pretas viesse apenas dos homens brancos. Segundo Frantz Fanon, os homens pretos, nutridos pelo desejo de serem brancos e por querer serem reconhecidos enquanto branco, relacionam-se com mulheres brancas a fim de alcançar esse reconhecimento… “sou amado como branco. Sou branco. Seu amor (o da mulher branca) abre-me o ilustre corredor que me conduz à plenitude (branca) (FANON, 2008). O amor preto é um ato político, mas o que fazer quando as preferências individuais são pautadas por uma construção social que, vale lembrar, é racista, Alice? Quanto mais uma mulher negra se especializa profissionalmente em nossa sociedade, mais é levada a individualizar-se. Sua rede de relações também se especializa. Sua construção psíquica, forjada no embate entre sua individualidade e a pressão da discriminação racial, muitas vezes surge como impedimento à atração do outro, na medida em que este, habituado aos padrões formais de relação dual, teme a potência inesperada dessa mulher. Também ela, por sua vez, acaba por rejeitar esses outros homens, pois não aceitará uma proposta de dominação unilateral. Desse modo, ou permanece solitária ou liga-se a alternativas em que os laços de dominação podem ser afrouxados… É ingênuo pensar que séculos do processo de escravidão que definiram toda a estrutura da sociedade, não definiriam os lugares de afeto. Diante disso, minha querida Alice, não vejo outra alternativa, senão a desmistificação do conceito de amor, transformando este em dinamizador cultural e social, buscando mais a paridade entre os sexos do que a igualdade iluminista que possui um devir utópico de um mundo sem diferenças. Ao rejeitar a fantasia da submissão amorosa, pode surgir uma mulher preta participante, que não reproduz o comportamento masculino autoritário, já que se encontra no oposto deste, podendo, assim, assumir uma postura crítica, intermediando a sua própria história e seu ethos. Assim, caberia a nós, mulheres pretas, levantar a proposta de parceria nas relações sexuais, para, desse forma, replicar nas relações sociais mais amplas... Desculpa-me pela carta imensa. Mas precisava desabafar meus anseios enquanto mulher negra. Me mande notícias tuas! Com amor, Beatriz. *O texto acima foi uma adaptação da versão do artigo “A mulher negra e o amor”, de autoria da historiadora Beatriz Nascimento publicado originalmente no jornal Maioria Falante, nº 17, fev/mar 1990. p. 3. O texto contém trechos do texto original da Beatriz. A adaptação foi produzida pela editora Maiara Juliana Gonçalves da Silva. Maiara Juliana Gonçalves da Silva é uma mulher preta e mãe (solteira) da Sofia Valentina. Nas horas vagas, ela é intelectual, historiadora e professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Escola Agrícola de Jundiaí - EAJ). Referências: NASCIMENTO, Beatriz. A mulher negra e o amor. Jornal Maioria Falante, nº 17, fev/mar 1990. p. 3. FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. 1ª ed. Salvador: EDUFBA, 2008. RAGO, MARGARETH. Do cabaré ao lar: A utopia da cidade disciplinar e a resistência anarquista – Brasil 1890-1930. São Paulo: Paz & Terra, 2009. RATTS, Alex (Org.). Eu sou atlântica: sobre a trajetória de vida de Beatriz Nascimento. São Paulo: Imprensa oficial/Instituto Kuanza, 2006. p-102-105.

Cartas ao espelho #mãesnauniversidade
Cartas ao espelho #mãesnauniversidade

A coluna Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa 10ª edição, recebemos um texto especial de uma colaboradora para a coluna Cartas ao espelho. Leiam: Naquele dia tudo aconteceu como vinha acontecendo. Acordaram cedo, tomaram juntas o café e foram para seus destinos. A pequena pra escola, a mãe para o trabalho. Um longo dia distantes, algo que era até bem novo para elas, visto que durante esses 5 anos longos as duas distantes era muito raro, sempre juntinhas, sempre coladas e se cuidando. Mais tarde, se juntaram novamente e seguiram sua rotina. A filha, acostumada desde o ventre a acompanhar a mãe onde quer que fosse, a Universidade acabava sendo só mais um espaço comum entre as duas. Muitos brincavam que seria uma criança prodígio, com boas articulações na fala e bem desinibida. O que de fato se concretizava. Desde sempre a pequena acompanhava a mãe nas aulas, com uma tranquilidade e completamente invejável. Costumava entrar e sair das salas sem ser notada, sempre acompanhada de folhas de papel, lápis de cor e alguns livrinhos ou um celular com fones para assistir seu desenho. Os amigos da mãe diziam achar incrível a forma como a criança se comportava, era uma criança super agitada, mas dentro da sala de aula sabia respeitar o ambiente e suas atitudes mais notáveis eram a entrega de desenhos aos professores e colegas de sua mãe ao fim das aulas. No tal dia ela estava assim, como sempre estivera. Calma, silenciosa e desenhista. Sentada ao fundo da sala com a mãe, visto que em aula anterior havia sentido certa rapidez do professor. Quando tudo aconteceu, ambas não entenderam direito, assim como não entendem até hoje. Mas pra mãe lhe doeu muito. O professor pediu que saísse da sala com sua filha, e ao pedir começou a proferir diversas palavras maldosas, preconceituosas e humilhantes. As duas saíram, acompanhadas de alguns amigos que se compadeceram naquele momento inesperado. Enquanto tentava entender de verdade o que estava acontecendo, a mãe chorava copiosamente, desejando profundamente que sua pequena não estivesse ali, presenciando aquela situação, aquele choro... compartilhando este momento doloroso. A criança chorava ao ver a mãe chorar e somente perguntava "por que ele não gosta da gente, mamãe?" Os dias que se seguiram pareciam uma sequência de filme mal produzido e mal editado. A história ganhava uma repercussão que não se esperava e as duas estavam mais uma vez no olho do furacão. Passando por um momento tenso e sofrido, juntas. Se seguiram várias entrevistas, depoimentos e coisas que não eram usuais para a mãe. O quanto pode, manteve a filha distante desses holofotes, que causaram na matriarca um grande aprofundamento de problemas psicológicos. O pior sentimento instaurado foi o medo. Quando a mãe recebeu um chamado do Conselho tutelar para responder sobre uma denúncia que haviam recebido do tal professor, dentre as acusações da denúncia estavam: não alimentar a criança, ser o pai um traficante, entre tantas outras mentiras absurdas e completamente infundadas. Não foi preciso muito para desmentir, bastava olhar pra ela pra ver que aquilo não passava da mais fútil e sádica forma de torturar e perseguir alguém. A mãe chorava dias e dias seguidos, necessitando de remédios para controlar tudo que sentia. Um grande medo de perder sua filha, de perder o seu futuro... Mas assim como sua mãe Oyá, tornou os ventos agentes de mudança, aprendeu com cada percalço nesse caminho, tem aprendido. A perseguição do professor não conseguiu muitos frutos, a mãe segue seu caminho na Universidade, com as mãos quase no diploma. A filha, segue sendo articulada como sempre foi, inteligente e forte ao lado da mãe. As duas juntas, como sempre foi. E sempre será. Para todas as mães universitárias do mundo.

Cartas ao espelho #amorpróprio
Cartas ao espelho #amorpróprio

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa 9ª edição, recebemos um texto especial da colaboradora Vivian Fróes para a coluna Cartas ao espelho. Leiam: Espelho Você conhece o mais escuro dos caminhos? Já teve a desgostosa experiência de ser carregado por tentáculos sem a sua vontade e anuência, para o mais profundo dos mares, perdido entre as coisas mais ruins desta Terra, onde todos os tipos de demônios estão presentes, seus maiores pesadelos, nuvens de cinza que emergem de seu peito feitas pelo desmembramento destilado de seus próprios sentimentos? Seu coração derrete, e começa a perfurar seu peito de dentro para fora, como se transformado em ácido, numa ascensão para o mundo externo. Os demônios balbuciam embebidos de desejo, percorrendo-lhes comichões por todo o seu corpo em ondas incessantes, babando numa idílica e fremida concupiscência. Você vê desesperada esta nuvem turvar à sua volta, tornando tudo vermelho e negro à medida que os demônios famintos se alimentam lubricamente do sangue, lhe rondam e misturam-se à sua volta, doidejando desvairados, voluptuosos de desejo do sofrimento, da energia e amor que jaz num coração. O sangue passa a coagular no ar, e tornar tudo negro. Esta imensa névoa torna a entrar para o seu corpo por suas narinas, e a voltar ao seu lugar de origem como numa eterna retroalimentação, contaminando todo o seu pulmão numa gigantesca contrição de desgosto e tísica, dando de volta uma névoa cada vez mais negra, triste, opaca, áspera, seca e sem vida. Esta névoa negra e tóxica começa a poluir seu corpo por completo, adentrando em todos os órgãos, falanges, extremidades e pontos de força, como um fumante que tira aos poucos a sua própria vida. Tudo começa a se tornar um gigantesco e fortíssimo vácuo e você começa a ruir de dentro para fora. Como dementadores, a vida começa a ser retirada de seu corpo célula à célula, e no final não resta sequer pó, tudo desaparece. Você percebe que tudo aquilo que pensava era mentira. E que os demônios se transformaram em palhaços engraçados, ou enfeites de festa. Você ri como um diabo diante do seu próprio sofrimento, e sente pena e misericórdia daqueles que jazem lá embaixo. Apenas estava apontando o espelho pro lugar errado. Você segue confiante, e percebe que não precisava olhar para o escuro, quando tem tanta luz à sua volta. Vi FF* Legenda: foto da autora Vivian Froés recitando o texto "Espelhos", no Teatro Oscar Niemeyer. *Vivian Fróes é Cantora, Pianista, Regente, Preparadora Vocal, Professora, Atriz e Autora. Trabalhou 3 anos e meio no Museu Imagem e Som sob a chefia do Alexandre Loureiro no Setor de Partituras e depois foi coordenadora da Empresa NAVARRO nos serviços prestados ao Projeto de Catalogação da Rádio Nacional. Entrou para Bacharelado em Regência Coral na UFRJ e depois fez mudança para Bacharelado em Canto Lírico, a qual na atualidade é graduanda. Foi Regente do Coral do Banco do Brasil de 2012 a 2016 e Monitora desde 2015 na Disciplina de Canto Coral da Doutora Valéria Matos na UFRJ. Mezzo-Soprano, artista solo e já fez vários shows acústico em Eventos LGBT+ e, especialmente, no Mês da Visibilidade Trans. Mulher trans, é atualmente Organista na Paróquia Anglicana Todos os Santos em Niterói e Professora de Canto Coral na "Orquestra nas Escolas". Tem histórico como ativista nos Movimentos LGBT+ e, principalmente, no Movimento Trans. Formada no Curso de Extensão "Mídia, Violência e Direitos Humanos" do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, e, no momento presente, faz parte do corpo de colaboradores do Projeto.

Cartas ao espelho #amorpróprio
Cartas ao espelho #amorpróprio

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa 8ª edição, recebemos um texto especial da colaboradora Vivian Fróes para a coluna Cartas ao espelho. Leiam: Transluza Gente, hoje eu vim falar sobre amor próprio. Mas não aquele amor próprio pra postar nas redes sociais, só para aparecer e fingir que está bem. Não um amor egóico. Aquele amor próprio MESMO. Verdadeiro, humano, puro, humilde e genuíno. Uma luz que cultivamos lá dentro de nós, e que jogamos para dentro, e para fora. De se olhar no espelho, e se valorizar, saber reconhecer seus valores, qualidades, e aquilo que não souberam e >>não quiseram<< valorizar, admirar. Sobre cuidar de você mesma, se preservar de determinadas situações, ser feliz em seu próprio cantinho, universo, e fazer dele querido e especial. Sobre não permitir mais que te machuquem ao ponto de te fazer perder o prumo, os eixos, a sua identidade e a sua origem, nem acreditar que você é uma pessoa indigna de que lhe façam companhia, sejam fiéis, te amem, e fiquem - e desejem ficar - para sempre com você. Eu sofri tanto no meu antigo relacionamento. Não pelas dores, desafios, brigas. Isso era o de menos, porque isso faz parte de todo relacionamento. Mas pelo abandono, pela indiferença. Pela falta de amor! Amor esse que é uma construção, longa, dura, árdua, difícil. De batalhas, sofrimentos, conquistas, vitórias. Vencemos tanta coisa juntos. Coisas inimagináveis. Se soubessem da missa a metade do que eu vivi e fiz por ele, jamais iriam acreditar. Daria um livro. No final, fiquei só. Fui deixada. Fui esquecida num estalar de dedos. Como se jamais tivesse conhecido essa pessoa. É assustador. É traumatizante. Às vezes achamos que vamos enlouquecer. Fiquei completamente perdida, sem entender nada. Nadando no vazio sem sair do lugar. Perdida nos confins mais profundos dos sentimentos e pensamentos. Parece que de uma hora pra outra, tudo virou um pesadelo. De todo o mal que possamos ter sofrido, nada, absolutamente nada é comparável ao abandono. Pois quando se ama não desiste. Ainda mais, tendo vivido tantas infinitas coisas, extremamente difíceis, e tendo superado. Depois de tudo que fiz por ele e ainda vinha fazendo. Estávamos na melhor fase do nosso relacionamento! Até hoje não entendi o porquê. E aí me peguei arrumando coisas em casa, e dentre elas achei esse presente que tinha dado pra ele. E pensei em mandar no frete para o endereço em que ele está, assim como fiz com as coisas dele depois de 1 mês ele tendo sumido. Mas mudei de ideia. E resolvi ficar. Resolvi transformar esse coração no meu amor próprio. Amor esse, que diante da conjuntura, se fez tão necessário, mais do que nunca. Independente dos motivos, e do que passamos na vida, ninguém pode ter o poder de lhe tirar isso. Nada justifica. Então, hoje, aprendi que a única pessoa que eu não posso tirar da cabeça, sou eu mesma! Pois a vida me ensinou, que a força da mulher (trans, cis, negra, branca, indígena, umbandista, católica, seja qual for a condição) está no amor próprio. Pois os homens são literalmente, capazes de lhe destroçar em mil pedaços quando querem. Pois não tenho dúvidas que o que eu passei foi machismo. E isso é algo que todas nós sofremos. E esse abandono, é algo que eu já sofri a vida inteira! Eu já sofri tanto nessa vida! Cansei de sofrer! Cansei do machismo! Para ele mais, não derramo nem >>uma<< gota de lágrima. Então levanta a poeira mulher, seja qual você for. Porque ninguém tem o direito de lhe arrancar a vontade de viver, o amor próprio, e a felicidade! escrito por: Mulher trans, em constante transição. Transformação. Transigência e transmutação. Trans"formem"-se! Transluza! Vi FF* Legenda: fotos da autora do texto no evento realizado no Teatro Oscar Niemeyer, em que a mesma recitou outro texto de sua autoria: "Espelhos" . *Vivian Fróes é Cantora, Pianista, Regente, Preparadora Vocal, Professora, Atriz e Autora. Trabalhou 3 anos e meio no Museu Imagem e Som sob a chefia do Alexandre Loureiro no Setor de Partituras e depois foi coordenadora da Empresa NAVARRO nos serviços prestados ao Projeto de Catologação da Rádio Nacional. Entrou inicialmente para Bacharelado em Regência Coral na UFRJ e depois fez mudança para Bacharelado em Canto Lírico, à qual atualmente é graduanda. Foi Regente do Coral do Banco do Brasil de 2012 a 2016 e Monitora desde 2015 na Disciplina de Canto Coral da Doutora Valéria Matos na UFRJ. Mezzo-Soprano, é artista solo e já fez vários shows acústico em Eventos LGBT+ e especialmente no Mês da Visibilidade Trans. Mulher trans, é atualmente Organista na Paróquia Anglicana Todos os Santos em Niterói e Professora de Canto Coral na "Orquestra nas Escolas". Tem histórico como ativista nos Movimentos LGBT+ e principalmente no Movimento Trans. Formada no Curso de Extensão "Mídia, Violência e Direitos Humanos" do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, e atualmente faz parte do corpo de colaboradores do Projeto.

Cartas ao espelho #assediadapelopai
Cartas ao espelho #assediadapelopai

A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. #alertagatilho Querida Beatriz, Este não é um relato inédito. Já o compartilhei com várias pessoas. As primeiras que me lembro foram meus irmãos, que, ambos, ignoraram o que tinham ouvido. Alguns anos depois, teimei e contei de novo ao meu irmão mais velho. Com o coração palpitante de quem só espera uma resposta e algum acolhimento, disse a ele que nosso pai havia me assediado em um bar afirmando que eu não era sua filha, mas uma mulher muito bonita. Tentando beijar com seus lábios molhados a minha mão, me desvencilhei, e ele, trôpego de bêbado, não se manteve em pé. O deixei então no chão do bar, sob os cuidados do dono. Desta vez, me lembro bem da reação de meu irmão: me disse ele, que eu deveria perdoar. Em meu aniversário ele me mandou ainda uma mensagem, me desejando, além dos parabéns, perdão. * Me lembrei de um terapeuta holístico que, ao escutar a mesma história, me disse que eu "emanava uma energia de desejo para meu pai", não uma "energia de filha". * Fico pensando que entre o perdão e a culpa não há uma diferença assim tão grande. A relação entre o perdão (o problema estava em mim por não perdoar) e "enviar energias sexuais" (a culpa por ser assediada era minha já que eu estava emanando energias de horizontalidade) é o fato de responsabilizar a vítima pela agressão sofrida. Se te escrevo hoje, é inspirada por um caso de um conhecido cientista político que foi acusado de abusar de seu enteado adolescente durante anos a fio e ter sido protegido pela "família grande". Esse é, aliás, o título do livro escrito pela irmã da vítima - que denuncia e documenta todo o caso. A “família grande” era os amigos, a mulher, os parentes, os outros filhos, a extensa rede de intelectuais que frequentava a casa. Se te escrevo hoje, querida amiga, é porque sei que a “família grande” pode contribuir com a conivência, com a negação, com o descaso, com a culpabilização, com o silêncio de abusos cometidos contra crianças e adolescentes, frequentemente praticados por alguém próximo, e que podem ter suas vidas destroçadas. Mas a “família grande” também pode denunciar, acolher, amparar e, sobretudo, não silenciar. Acho que você me entende bem. Ao tornar pública a família grande - como fez a autora do livro - podemos servir à proteção da vítima e evitar novos assédios. Podemos também dizer que não aceitamos, que a negação, a culpa e o silêncio não nos são mais suficientes. Com carinho e esperança, Júlia

Cartas ao espelho
Cartas ao espelho

TODA MULHER JÁ FOI ASSEDIADA! A Cartas ao espelho objetiva relatar e publicar casos de machismo e misoginia que permeiam as relações pessoais, afetivas e profissionais de mulheres. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos, ao máximo, preservar a identidade das pessoas envolvidas. Por isso, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, escolhemos usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Diante dos últimos acontecimentos envolvendo denúncias de assédios sexuais, a Revista Mulheres do Fim do Mundo preparou uma edição especial da coluna Cartas ao espelho para o nosso número de dezembro de 2020. Assim, a nossa coluna trouxe 13 relatos, anônimos, de assédios vivenciados por várias mulheres. Os depoimentos divulgados nos foram por algumas leitoras que utilizaram a # da nossa pequena campanha: #FoiAssedio. Confiram os relatos. #FoiAssedio quando o meu professor de Química, do ensino médio, propôs que eu ficasse com ele e em troca eu ganharia um aumento na minha nota final na disciplina. #FoiAssedio quando eu estava andando na rua e fui perseguida por um homem dirigindo um carro lentamente, acompanhando meus passos, enquanto me dirigia palavras obscenas de dentro do carro. Isso tudo em plena luz do dia. #FoiAssedio Já fui assediada e abusada em tantas instâncias na minha vida que nem sei exatamente qual falar aqui. Desde bem pequena, familiares, médicos, namorados, professores... Triste conhecer essa realidade tão cedo. Mas acho que uma das minhas piores memórias foi de um professor meu. Ele dava minha matéria favorita e dizia que eu era sua aluna favorita. O problema é que esse professor assediava todas as suas alunas e, quanto mais "especial" ela fosse, mais frequentes eram os assédios. Ele nos tocava, nos abraçava por trás, queria ficar sozinho conosco após a aula, todas tínhamos medo dele. Eu tive tanto problema com isso que comecei a ficar mal na matéria para não receber atenção, o que não funcionou. Na verdade, piorou tudo. Por anos, evitei chamar a atenção de professores, por causa desse em questão. E o pior é que, por mais que várias alunas já tivessem sido suas vítimas e algumas até tivessem colhido depoimentos sobre, ele continuou na escola, por anos e anos. #FoiAssedio Viajando sozinha pelo Uruguai, perdi meu único cartão de banco, sem nenhum peso a mais. Era Natal e de repente batiam à porta desafios de como pagar o que comer... Conversava sobre isso (um pouco desesperada) com um amigo na venda que eu frequentava. Quando o amigo foi embora, ficamos somente eu e o dono da venda, um senhor com seus 60 anos. Ele me pergunta o que vou fazer no natal, se eu gostaria de passar com ele, e se oferece para me emprestar dinheiro ou me dar, pois tinha ouvido o relato da situação vulnerável em que eu estava. #FoiAssedio Eu mudei de profissão por conta de assédio. Sempre fui secretária, comecei a trabalhar com o meu pai numa empresa estatal e lá mesmo, o chefe dele na época, em um Dia da Secretária me mandou o seguinte discurso “você só passa perrengue por que quer, o que não falta são pessoas querendo te ajudar.” Contado assim pode parecer rotineiro “Ah, pára... só preocupação !” Mas, o tom da voz, o olhar, o jeito. Me dá até nojo lembrar. E o que somos instruídas a fazer? “Faz cara de paisagem...”. Não era paisagem. Durante os 15 anos em que exerci a profissão de secretaria sempre sofri assédio. Durante ou depois de ter trabalhado com esses senhores. Simplesmente horrível. Hoje trabalho com a Educação Infantil. Prefiro lidar com egos do que me sentir acuada. #FoiAssedio Morando no Rio de Janeiro a maior parte de minha vida, e me deslocando para o trabalho sempre de metrô ou ônibus, perdi a conta de quantas vezes me senti acuada, amedrontada, optando até mesmo por descer do transporte em razão do comportamento de homens que tentavam me tocar ou “esfregar-se” em mim. #FoiAssedio Tive um namoradinho que, um belo dia, chegando na minha casa pra me buscar pra irmos jantar disse: “Ué… mas você não tá pronta! Vc ainda tá de pijama! Vc vai trocar essa roupa, né?!”. Eu tava com um vestido curto que não tinha NADA de pijama. Me senti péssima e fui trocar de roupa. #FoiAssedio e hoje em dia luto para que cada vez menos mulheres tenham que passar por esse tipo de coisa. #FoiAssedio Eu tinha uns 13 anos quando, pela primeira vez, saí pelas ruas de Copacabana depois do “show de fogos de artifício” do Ano Novo. Eu estava com meus irmãos, primos e primas. Também foi a 1a vez que vesti uma mini saia. Eu fiquei pra trás do grupo com uma prima mais velha que tinha parado pra comprar bebida e um bando de homens passou pela gente e um deles agarrou minha bunda. #FoiAssedio e o pior é que antes que eu pudesse reagir minha prima me segurou e disse que aquilo era coisa de homem e que eu deveria me acostumar. Só vesti uma mini saia de novo uns 15 anos depois, e ainda assim me senti desconfortável. #FoiAssedio Eu estava bêbada num bar e pedi desconto numa cerveja. Meio de zoeira, meio no “vai que cola….”. Um cara começou a conversar comigo e me encher o saco se oferecendo pra me pagar a tal cerveja. Na hora eu ri, falei qualquer coisa do tipo “não, tô de boa, tô zoando” e saí, mas foi muito tenso, fiquei muito bolada e o cara ainda foi atrás de mim. #FoiAssedio No ano de 2014, eu e mais duas amigas brincávamos carnaval na cidade de Olinda/PE. Quando estávamos em um determinado bloco, fui puxada por um homem que me beijou à força. Ele simplesmente me beijou, enfiou a língua dentro da minha boca e saiu. #FoiAssedio Estava em uma roda de samba no bar no bairro da Lapa,Rio de Janeiro. Estava rolando uma roda de samba nele. Me afastei da mesa que estava e fui ao banheiro. No caminho, um homem esfregou uma latinha de cerveja nas minhas costas enquanto me chamava de “gostosa”. #FoiAssedio De madrugada, após sair de uma festa, eu e uma amiga pegamos um uber para irmos para casa. Eu fui a última a ser deixada. Durante o percurso da casa da minha amiga até a minha casa, o uber perguntou se eu tinha namorado e passou todo o trajeto dizendo que eu era linda e sexy. No final da corrida, ainda pediu meu número de telefone. #FoiAssedio Chamei um eletricista para resolver um problema no quadro de energia da minha casa. Ele já havia prestado outros serviços em minha residência. Dessa vez, eu estava recém-separada e recebi o homem sozinha em casa. No final do serviço, ele perguntou pelo meu ex-marido e eu informei que havíamos nos separado. O homem começou a me tecer elogios (dizendo que eu era uma mulher muito bonita e sexy) e disse que, agora que era uma mulher sozinha, eu precisaria de um homem em casa. E acrescentou que, quando eu precisasse de um homem, poderia chamar ele. Ligue 180 Qualquer assédio contra a mulher pode ser denunciado pelo número 180. A denúncia pode ser feita de forma anônima e é importante fornecer a maior quantidade de informações possíveis, para que haja material suficiente para uma investigação e possível responsabilização do agressor. O fato da denúncia ter sido feita pelo 180 não impede que a vítima vá até uma delegacia fazer um boletim de ocorrência também. A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é uma política pública essencial para o enfrentamento à violência contra a mulher em âmbito nacional e internacional. Por meio de ligação gratuita e confidencial, esse canal de denúncia funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana, no Brasil e em outros 16 (dezesseis) países: Argentina, Bélgica, Espanha, EUA (São Francisco e Boston), França, Guiana Francesa, Holanda, Inglaterra, Itália, Luxemburgo, Noruega, Paraguai, Portugal, Suíça, Uruguai e Venezuela. Em casos de violência contra crianças e adolescentes a denúncia pode ser feita no conselho tutelar, no Ministério Público e/ou na Delegacia da Infância e da Juventude (se não houver delegacia especializada, busque uma delegacia normal). Denuncie!

Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula
Cartas ao espelho: #machismoemsaladeaula

Esta coluna objetiva relatar casos de machismo e de misoginia que permeiam tanto as nossas relações pessoais afetivas, como as relações profissionais acadêmicas. Algumas vezes, é através do espelho que a gente se reconhece. Caso queira enviar algum relato, contate-nos. Partimos de casos que vivenciamos - direta ou indiretamente. Procuramos ao máximo preservar a identidade das pessoas envolvidas. Para preservar a identidade nos casos relatados, optamos por usar o formato da correspondência pessoal, a fim de manter o tom de intimidade com o qual muitas vezes nos descobrimos e relatamos essas situações entre nós. Assinando anonimamente as cartas, optamos por usar como pseudônimos os nomes de duas historiadoras brasileiras conhecidas pelos casos de misoginia perpetrados contra elas: Beatriz, mulher negra, foi morta por meter a colher em briga de marido e mulher; e Alice, cuja banca para professora catedrática faz parte da história da historiografia brasileira. Nossas postagens serão mensais e garantimos o anonimato na produção dos relatos. Caso queira enviar algum relato, por favor, envie um e-mail para: cartas.ao.espelho.mfm@gmail.com. Em nossa terceira edição, do mês de setembro, trazemos dois textos denunciativos e que dialogam entre si. Os textos foram escritos por duas colaboradoras da Revista Mulheres do Fim do Mundo. Excepcionalmente, e com a expressa autorização e desejo das autoras, optamos por não ocultar suas identidades Confiram! #alertagatilho #denúncia #abusos Oi, Bia. Como anda a vida? Por aqui as coisas vão bem, na medida do que é possível “estar bem” em tempos de pandemia. Esses tempos de isolamento social não têm sido fáceis, mas a nossa troca de cartas tem me ajudado. Eu sei que o assunto que eu vou tratar hoje vai pegar você de surpresa e talvez você se pergunte o porquê de eu não ter dividido isso antes, mas não leve a mal, acho que eu só não queria revisitar um assunto que ainda é doloroso. Você me entende, eu sei. Como você sabe, antes de vir para o sertão alagoano, eu estava professora de uma escola particular em Parnamirim, no Rio Grande do Norte. Naquele dia, que parecia ser apenas uma sexta-feira comum de fevereiro de 2018, na turma do terceiro ano do Ensino Médio, discutimos sobre Islamismo, Feminismo e Ocidentalização com base no texto “A mulher no Oriente Médio e o feminismo islâmico”, escrito por Claudia Santos. Tirando alguns risinhos debochados, olhares de reprovação e breves reclamações sobre o tema, a aula ocorreu tranquila (pelo menos foi o que eu pensei). Expediente encerrado, no horizonte, mais um final de semana de Netflix e leituras do mestrado. Já passava das vinte e duas horas do sábado, quando meu celular apitou avisando que havia uma nova mensagem no WhatsApp. Li as mensagens, ouvi os áudios e não quis acreditar: eu havia sido adicionada em um grupo e estava sendo xingada com frases sexistas e misóginas. Percorri a lista de participantes, reconheci alguns rostos e vozes, apesar de eu não ter nenhum daqueles números na minha agenda, percebi que eram alunos e ex-alunos da escola na qual eu estava professora. Pelo curto espaço de tempo em que permaneci ali, antes de ser removida por um deles, me mantive em silêncio. Tentei digerir o que estava acontecendo e então a ficha caiu: um bando de rapazes (eu diria moleques, mas estou tentando ser polida) estava me insultando abertamente em um grupo do WhatsApp e se divertindo com isso. Passei o final de semana bancando a detetive particular (você sabe que sou boa nisso), na tentativa de associar nomes e rostos àqueles números de telefone e, depois de um domingo inteiro, consegui. Na segunda-feira, depois das aulas ministradas, procurei a coordenadora disciplinar. Narrei em detalhes o que havia acontecido, apresentei as informações que eu havia coletado e ela ficou de levar o ocorrido à direção da escola. Meses se passaram (isso mesmo, meses) e os alunos não foram chamados na coordenação, eu sabia disso porque a história não estava circulando pelos corredores da escola, como era costume. Quando eu perguntei o porquê, a coordenadora respondeu: “Lucila, eu não chamei os alunos para conversar porque aconteceu fora da escola”. Fiquei sem acreditar e respondi: “Sim, mas envolve alunos da instituição!”. Na minha cabeça, a postura da coordenação, que eu pensava ser também a postura da direção, ia de encontro à missão da empresa “ o desenvolvimento integral dos educandos”. No caminho para casa, planejei mil formas para resolver aquele assunto sozinha. Eu não admitia (ainda não admito) que aqueles jovens ficassem sem punição, mas se tratava de uma instituição particular, que não estava se importando com o bem estar de uma docente. Duas coisas me fizeram desistir de seguir com qualquer um dos meus planos: eu não tinha autonomia para responsabilizar institucionalmente, muito menos juridicamente, aqueles jovens e, infelizmente, eu precisava daquele emprego. Os dias que se seguiram não foram fáceis, me senti derrotada (é como me sinto até hoje). E, apesar de não querer admitir, eu precisava pedir demissão daquele lugar. A verdade é que aquela escola já não me fazia bem desde 2017, quando fui perseguida pelo professor de geografia e a instituição não soube lidar com a “mediação do conflito”, este criado por um homem machista, que se sentia oprimido pela profissional que eu era e que não admitia que eu não precisasse dele como mentor, conforme ficou claro na conversa que tivemos. Mas isso é assunto para outra carta. Em junho de 2018 marquei uma reunião com a direção para avisar que eu não continuaria como professora da escola depois das férias de julho. Durante a conversa, expliquei os motivos da minha saída e, pasme, a coordenadora não havia levado o assunto do tal grupo do WhatsApp para a direção. Como aquele era um assunto desconhecido da diretora, revisitei os fatos daquele final de semana de fevereiro, enquanto narrava os detalhes do que havia acontecido. Mesmo com a minha saída iminente, a direção convocou os adultos responsáveis pelos alunos para uma reunião, da qual eu não participei e na qual fui acusada, por uma das mães, de perseguir um “pobre menino inocente, que fez uma brincadeira e não entendia a gravidade do que disse”. O assunto foi dado como encerrado, os alunos não foram responsabilizados e eu segui a vida bem longe dali. Hoje, mais de dois anos depois, esse ainda é um assunto que me deixa triste e frustrada. Você sabe, não gosto de assuntos inacabados e carrego comigo um sentimento, uma necessidade de justiça. Mas eu precisei me afastar daquilo tudo, principalmente porque entraria nos seis meses finais do mestrado e eu tinha uma dissertação para terminar. Espero que agora você entenda o porquê de eu ter demorado tanto para escrever sobre isso. Saudades das nossas conversas na varanda da sua casa. Um abraço enorme, Bia. Ansiosa pela sua opinião sobre isso, Lucila. Lucila Barbalho Nascimento é apenas uma feminista potiguar que mora no sertão alagoano e está em constante (des)construção. Historiadora de formação e apaixonada pela docência. Uma leonina que não gosta de espelho e é viciada em séries. Fundadora e coordenadora do Grupo de Estudos Feministas Dandara Dos Palmares (instagram @gefem_dandaradospalmares). Seu Instagram pessoal é @lucila_barbalho.